A Espanha foi a campeã. A Argentina fez uma final vergonhosa. Portugal e Brasil decepcionaram. Lionel Messi foi o melhor. Cristiano Ronaldo mais atrapalhou do que ajudou. Neymar foi um fiasco. Não menos importante, Vozinha ganhou mais de 25 milhões de seguidores nas redes sociais.
Numa competição marcada por diversas questões táticas e técnicas, e, infelizmente, também políticas, o maior personagem não foi aquele que mais brilhou dentro de campo. A história mais impactante aconteceu fora das quatro linhas e envolveu um desconhecido goleiro que vinha de uma temporada apagada na segunda divisão portuguesa.
Justiça seja feita, Vozinha fez uma grande exibição na estreia de Cabo Verde contra a tricampeã Argentina. O épico empate em 0 a 0 surgiu pelas mãos de um tal de Josimar José Évora Dias. Há, obviamente, que elogiar tamanho feito.
O camisa 1 dos Tubarões Azuis prontamente tornou-se um influencer digno de fazer inveja a artistas famosos. Tudo isso graças à CazéTV, que, ainda durante o duelo entre cabo-verdianos e argentinos, fez campanha para que ele fosse seguido em massa no Instagram.
A atitude do maior (e melhor) canal de streaming brasileiro não teve viés pejorativo, tampouco por trás qualquer impulsionamento negativo. Aconteceu de repente. Tudo muito rápido. Seguramente, com a intenção mais pura e nobre possível.
Entretanto, não foi nada orgânico. Reconheço a beleza do gesto, mas, ao mesmo tempo, discuto o resultado a longo prazo. Acredito que, a partir de agora, Vozinha dificilmente será visto primeiramente como um jogador de futebol.
Ainda em atividade, a principal função do experiente cabo-verdiano passou a ser secundária. Do dia para a noite. E não foi por culpa dele. Não escolheu ser uma referência na internet. Praticamente escolheram por ele.
É bem verdade que Vozinha rapidamente passou a colecionar patrocinadores e clubes interessados ao redor do mundo. Inclusive, chegou a ser alvo de desejo no Brasil. No fim, assinou contrato com o Colo-Colo, do Chile.
Mesmo que o próprio ‘ignore’ os milhões de seguidores, o ‘estrago’ está feito. Com ou sem grandes defesas, com ou sem resultados positivos em campo, as avaliações alheias quase sempre estarão vinculadas ao sucesso (?) digital.
O que minimiza a discussão é a idade avançada do goleiro: 40 anos. O rótulo criado ‘forçadamente’ não vai acompanhá-lo por muito mais tempo em campo. Dito isso, vamos imaginar se o mesmo tivesse acontecido com um jovem de 20 anos. Compreendem a dimensão do (provável) problema?
Esta matéria foi publicada originalmente na edição impressa da EntreRios, disponível mensalmente em bancas de Portugal. Faça a sua assinatura para ter acesso a conteúdos exclusivos e receber a revista em casa.
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Bruno Andrade