A cultura afro-brasileira vai ocupar as ruas de Lisboa neste domingo com a Lavagem de Santo António, celebração que une música, espiritualidade e memória. Inspirada na tradicional Lavagem do Bonfim, em Salvador, a iniciativa promove um cortejo pela paz e a lavagem simbólica das escadarias da Igreja de Santo António.

O desfile parte da Praça D. Pedro IV, no Rossio, às 11h, em direção ao Largo de Santo António. A cerimônia de lavagem das escadarias está marcada para as 14h, segundo a programação divulgada pela organização, que sugere que os participantes vistam branco da paz. Lisbloco, Baque Mulher, Abada Capoeira, Baque do Tejo, Grupo Batala, Baianas e Pai Pote são algumas das atrações.

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“A lavagem é um bem cultural imaterial. Faz parte da história da humanidade e, sobretudo, da identidade afrodescendente. Realizá-la é uma forma de celebrar a vida, tanto passada quanto presente. É a nossa memória, e devo dizer que não é só nossa, brasileira, mas também portuguesa, por diversos motivos”, afirma Aline Silva, uma das organizadoras, à EntreRios.

Lavagem de Santo António em 2025 (Foto: reprodução Instagram)

Uma tradição que atravessa fronteiras

A Lavagem tem como uma de suas principais referências a Lavagem do Bonfim, em Salvador, na Bahia, celebração marcada pela presença de baianas, cortejos, flores e pelo gesto simbólico de lavar as escadarias da igreja.

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A iniciativa é uma extensão da Lavage de la Madeleine, em Paris, criada pelo artista baiano Robertinho Chaves. A versão lisboeta nasceu no âmbito das comemorações dos 20 anos da Associação Viva Madeleine, da qual Aline Silva, uma das organizadoras, faz parte há mais de 15 anos. A ideia surgiu no período posterior à pandemia de Covid-19, como uma forma de ampliar a celebração para além da capital francesa.

Em Paris, a celebração foi criada por Robertinho Chaves e começou a ganhar forma no fim da década de 1990. A primeira edição aconteceu em 1998, na região do Sacré-Cœur, e, posteriormente, o evento passou a ser realizado junto à Igreja da Madeleine. A iniciativa francesa foi inscrita, em 2022, no Inventário Nacional do Patrimônio Cultural Imaterial da França.

A trajetória da Lavage de la Madeleine ajuda a compreender o caminho percorrido pela tradição até chegar a Lisboa. Para Aline, a celebração não diz respeito apenas à comunidade brasileira: também dialoga com a história portuguesa e com as relações culturais construídas entre os dois países.

Realizar uma celebração de matriz afro-brasileira em outro país exige adaptações. Em Lisboa, a organização procura conciliar a essência cultural e espiritual da Lavagem com os procedimentos e as condições locais.

“Temos desafios constantes, como coordenar as pessoas que participam, que são numerosas e voluntárias. Encontrar financiamento para a sua realização também é um desafio”, explica Aline.

Ela destaca o envolvimento do Museu de Lisboa – Santo António e o trabalho da Associação Viva Madeleine na produção do evento. Segundo a organizadora, a colaboração entre os participantes e as instituições envolvidas é fundamental para tornar a festa possível.

A adaptação, no entanto, não significa abrir mão do significado da celebração. A proposta, segundo Aline, é preservar o propósito coletivo da Lavagem e apresentar sua essência ao público português.

Diálogo diante da intolerância religiosa

A presença de referências das religiões de matriz africana em uma celebração realizada em Portugal também pode provocar resistência. Aline afirma que a organização já enfrentou situações de preconceito, mas destaca o diálogo como caminho para lidar com essas experiências.

“Sim, acontece, mas com diálogo e respeito conseguimos ultrapassar estas situações com dignidade e fé”, diz.

A experiência da Lavage de la Madeleine, em Paris, também evidencia os desafios de ocupar espaços públicos e religiosos com manifestações afro-brasileiras. Em 2026, a organização francesa anunciou mudanças relacionadas à realização do ritual tradicional nas escadarias da igreja, mantendo a celebração no espaço público diante do templo.