Um país que mantém os olhos quase sempre voltados para os gramados do futebol quase nunca enxerga como deveria os enormes talentos que produz fora deles. Ainda assim, o Brasil não para de revelar atletas e personagens capazes de ocupar lugar entre os maiores do esporte mundial. Neste fim de semana, dois deles mostraram por que estão entre os melhores de suas modalidades: José Roberto Guimarães e Alison dos Santos, o Piu.

Comecemos pela lenda José Roberto Guimarães.

Aos 72 anos, Zé Roberto parece ter feito um pacto com o tempo. Neste fim de semana, ao vencer o Sul-Americano de vôlei feminino contra a Argentina, levou a seleção a mais uma classificação para os Jogos Olímpicos. Los Angeles 2028 será mais um capítulo de uma trajetória que começou muito antes de boa parte das atuais jogadoras terem nascido. Na opinião deste colunista, Zé Roberto é hoje o maior treinador, considerando todos os esportes, em atividade no mundo.

Pode parecer uma afirmação exagerada. Mas seu currículo ratifica a tese.

Em Barcelona 1992, levou a seleção masculina ao primeiro ouro olímpico da história do vôlei brasileiro. Anos depois, assumiu as mulheres e repetiu o feito duas vezes, em Pequim 2008 e Londres 2012. Tornou-se o único treinador da história do vôlei campeão olímpico comandando equipes masculinas e femininas. Ainda acrescentou uma prata em Tóquio e um bronze em Paris.

São mais de três décadas separando seu primeiro ouro olímpico do último pódio. Nesse intervalo, jogadores e jogadoras se aposentaram, regras mudaram, adversários surgiram e desapareceram e diferentes gerações passaram pelas seleções brasileiras.

Zé ficou. E continuou ganhando.

Desde 2003 à frente da seleção feminina, construiu e reconstruiu equipes sem permitir que o Brasil deixasse de ocupar um lugar entre as grandes potências do vôlei. Em 2026, voltou a renovar o grupo, manteve a equipe competitiva contra as melhores seleções do planeta e agora garantiu antecipadamente a presença brasileira em Los Angeles. Será sua última dança. O treinador confirmou que se despede em 2028 e passará o bastão para a ex-jogadora e auxiliar-técnica Fofão.

Nascido três anos antes de Zé Roberto iniciar sua vitoriosa trajetória com as meninas do vôlei, o fenômeno Alison dos Santos vive uma temporada simplesmente inacreditável.

Aos 26 anos, Piu, apelido que Alison herdou de outro atleta de sua cidade natal, São Joaquim da Barra, no interior de São Paulo, venceu todas as competições que disputou nos 400 metros com barreiras em 2026, conquistando pela terceira vez a Diamond League, o principal circuito de competições do atletismo mundial. Na etapa de Zurique, correu a prova em surreais 45s80 para derrubar o recorde mundial de 45s94, estabelecido pelo norueguês Karsten Warholm na final olímpica de Tóquio, em 2021.

No domingo passado, ele voltou a vencer. Piu conquistou o Ultimate Championship de Budapeste dos 400 metros com barreiras e terminou novamente à frente dos concorrentes com quem há anos divide o protagonismo da prova. Com isso, o brasileiro se tornou o homem a ser batido na modalidade.

E seu currículo já é digno de um gigante. Piu foi campeão mundial em 2022, conquistou o bronze olímpico em Tóquio e voltou ao pódio em Paris, além de acumular três títulos da Diamond League. Aos 26 anos, parece ter atingido o auge físico e técnico. E, ao contrário de Super Zé, ainda tem uma longa estrada pela frente. Quando Los Angeles chegar, Zé Roberto terá 74 anos. Piu, 28.

Dois gênios separados por 46 anos e unidos pela extraordinária capacidade de vencer. O Brasil pode continuar olhando quase sempre para os gramados. Mas Super Zé e o fabuloso Piu continuarão fazendo história fora deles.