MiMo Festival

Alaíde Costa: aos 90 anos, cantora fala sobre sonhos, carreira e o filme que resgata sua história

Cantora conversou com a EntreRios antes de se apresentar no MiMo Festival, no sábado (4)

Julho 5, 2026

Alaíde Costa. Crédito: Jordan Alves
Alaíde Costa em show neste sábado (4) ao lado de Cristóvão Bastos no MiMo Festival em Guimarães. Crédito: Jordan Alves

Poucos minutos antes de subir ao palco do MiMo Festival, em Guimarães, neste sábado (4), Alaíde Costa mantinha a serenidade que se tornou marca de sua trajetória artística. Aos 90 anos de vida e 70 de carreira, a cantora e compositora brasileira retocava cuidadosamente a maquiagem diante do espelho do camarim. Vaidosa, fazia questão de estar pronta para mais um encontro com o público. Logo depois, com voz doce e um sorriso discreto, concedeu entrevista à EntreRios e falou sobre o momento especial que vive. Ao lado do pianista Cristóvão Bastos e do multi-instrumentista Mauro Senise, Alaíde apresentou um espetáculo de rara cumplicidade musical, reafirmando a elegância e a permanência de uma das maiores intérpretes da música brasileira.

Alaíde Costa. Crédito: Jordan Alves

Alaíde Costa retocando a maquiagem antes do show no MiMo. Crédito: Jordan Alves

Questionada sobre a apresentação em Portugal, respondeu exatamente como canta: com simplicidade.

“É aquelas coisas que vocês já conhecem. Aquela calmaria. Eu diria que sou uma pessoa que canta suavemente e é por aí. Não tem agito”, afirmou antes de subir ao palco e cantar sucessos como  “Dindi” (Tom Jobim/Aloysio de Oliveira)

Mas basta olhar para sua agenda para perceber que a vida de Alaíde está longe da calmaria. Além dos shows, ela vive a expectativa pelo lançamento do filme A Noite de Alaíde, dirigido por Liliane Mutti. Ao falar sobre assistir à própria trajetória no cinema, não escondeu a emoção.

“Eu fiquei muito emocionada. Tenho 70 anos de carreira e 90 de idade. Estar viva para assistir uma coisa assim eu acho fantástico”, disse. Perguntada sobre como é ver sua história registrada na tela grande, reforçou o sentimento: “É difícil encontrar uma palavra para traduzir. Eu fiquei muito feliz.”

LEIA MAIS: Fernanda Abreu diz que jovens redescobriram suas músicas e critica o excesso de letras sexualizadas no funk atual

Mesmo sendo uma das artistas fundamentais da música brasileira, Alaíde fala sem amargura sobre as exclusões que enfrentou ao longo da carreira. Durante décadas, sua contribuição foi colocada em segundo plano pela indústria fonográfica, apesar do reconhecimento permanente entre músicos e compositores. Ainda assim, ela segue olhando para frente. Quando EntreRios perguntou sobre seus sonhos, ela respondeu com a humildade de quem nunca perdeu o encantamento pela profissão. “Eu sonho ainda conseguir trabalhar pelo menos mais um ano”, afirmou, arrancando risos durante a entrevista por conta de sua vitalidade. Ao falar sobre as influências musicais, fez questão de homenagear quem considera sua grande referência. “Dalva de Oliveira. Embora eu tenha um jeito de cantar completamente diferente do dela, aprendi muito com ela. Inclusive fiz recentemente um disco em homenagem a ela”, diz.

Alaíde Costa e João Gilberto em 1956 Crédito: Reprodução

Alaíde Costa e João Gilberto em 1956 Crédito: Reprodução

LEIA MAIS: NOS Alive 2026: veja a programação completa e horários dos shows nos três dias do festival

Estreia nos cinemas

A história de Alaíde finalmente é contada em A Noite de Alaíde, que chega aos cinemas de Portugal e do Brasil na quinta (16), revelando ao grande público a trajetória da única mulher negra que integrou o núcleo fundador da bossa nova ao lado de João Gilberto, Tom Jobim, Vinicius de Moraes e Johnny Alf. No palco do MiMo, porém, não foi preciso recorrer ao cinema para compreender sua importância. Bastaram sua voz delicada, sua interpretação sofisticada e a emoção compartilhada com o público para ser aplaudida de pé. Nesta segunda (6), Alaíde sobe novamente ao palco do Bota Anjos, em Lisboa, ao lado de Cristóvão Bastos e Mauro Senise. Ainda há bilhetes. 

O MiMo Festival continua neste domingo (5), com uma programação gratuita que reúne ainda Zé Ibarra, Aline Paes, Coletivo Gira e outras atrações espalhadas pelos palcos instalados no centro histórico de Guimarães.

jordan@revistaentrerios.pt