A compra de imóveis em Portugal tem se tornado cada vez mais cara, especialmente nos grandes centros como Lisboa e o Porto. Com isso, tem se tornado mais comum que turistas e residentes procurem por novas habitações em diferentes regiões do interior do país.
O índice de preços de imóveis do site Idealista mostrou que a variação anual de preços em janeiro de 2026 subiu 13,1% em todo o país em comparação a janeiro de 2025.
Com isso, o metro quadrado chegou a um novo máximo pelo terceiro mês consecutivo, com 3.047 euros por metro quadrado (euros/m2). Cidades do interior como Guarda (22,2%), Beja (21,9%) e Santarém (21,6%) apresentaram percentuais de crescimento superiores aos índices das duas maiores cidades portuguesas.
Para o consultor imobiliário Henrique Dabdab, os preços vêm subindo significativamente por conta da grande demanda e da falta de novas ofertas.

“Ano passado tivemos um recorde de licenças de construção emitidas desde 2009. Há interesse em fazer construções, mas há a questão da mão de obra que é complexa por envolver a imigração e nem tudo sai no ritmo que é necessário. Com menos construções e mais procura, os preços continuam subindo”, avalia ele.
Apesar do crescimento expressivo, especialistas e compradores de imóveis frisam que o preço das moradias ainda é muito menor do que nos distritos de Lisboa, Porto e Faro.
Segundo o Idealista, na maioria dos municípios portugueses ainda é possível comprar uma casa por menos de 192,3 mil euros, a mediana do preço dos imóveis no final do ano passado. Quanto mais distantes dos grandes centros melhores podem ser as ofertas.
“O que acontece é que uma casa em Lisboa que era 150 mil e passou para 300 mil e uma que era no interior passou de 30 para 60 mil euros”, compara ele. Segundo o consultor, a explosão no número de trabalhos remotos desde a pandemia também teve impacto.
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“Existem imóveis muito maiores por valores inexistentes em grandes cidades. Com o aumento do custo de vida e a possibilidade de estar em um lugar mais tranquilo, as pessoas começaram a olhar com mais interesse para os imóveis no interior”, analisa.
Esse é o caso de Bruno Carvalho, gestor e consultor de Recursos Humanos que trabalha remotamente.
Carioca e filho de mãe portuguesa, ele começou a pensar na mudança para Portugal por conta da falta de segurança no Rio de Janeiro. Pela internet, Bruno conheceu dois corretores imobiliários que o ajudaram a encontrar opções de imóveis no país.

A opção foi por um apartamento de dois quartos em Figueira da Foz, município litorâneo no centro do país.
“Enviei sugestões, fizemos pesquisas e eles gravaram vídeos, me deram informações sobre a região e me ajudaram com toda a negociação. Comprei o apartamento à distância e vou conhecer no dia que chegar”, detalhou ele, que finalizou a compra em fevereiro de 2025 e alugou o apartamento até que se mude efetivamente em julho.
Bruno elogia o clima da cidade, a segurança, o fato de poder morar perto da praia e a possibilidade de ter bons serviços à disposição, incluindo de escolas para o seu filho de 14 anos. Segundo ele, a opção pela compra se deu por conta de valores muito mais competitivos.
“Pude perceber uma diferença entre 50 e 100 mil euros para os imóveis no Porto e em Lisboa. Com o valor da prestação atual, consigo guardar dinheiro e fazer com que minha vida rode bem financeiramente”, resume.
Bruno foi um dos clientes dos consultores imobiliários Patricia e Fernando Castro. A procura aquecida tem chegado a cidades cada vez mais distantes.
“Muitas pessoas estão se afastando por conta dos altos preços. Já realizamos vendas em Torres Vedras, Leiria Bombarral e Caldas da Rainha e temos percebido esse aumento da procura nesses municípios tanto para morar quanto para investir”, afirma Patricia.

Consultora desde 2019, ela destaca que Portugal tem atraído tanto pessoas com alto poder aquisitivo quanto aquelas de classe média com necessidade de financiar apartamentos mais baratos.
“O que temos observado é que todos os que compraram imóveis já estão com seus preços valorizados. Temos o caso de uma pessoa que fez uma aquisição há seis meses e já viu o valor subir em 90 mil euros”, destaca.
Os preços competitivos também têm se tornado um diferencial para que os brasileiros considerem o interior como uma opção para viver.
Marcos Silva chegou a Portugal há quase 30 anos, mas já morou nos Estados Unidos, França, Suíça e Suécia. Há pouco mais de dois anos, o motorista de caminhão se mudou com a esposa Iara e com a filha para um apartamento em Setubal. Com as altas dos preços na cidade da região metropolitana, eles se mudaram com a filha no início do ano para Miranda do Douro, próximo à Bragança e à fronteira com a Espanha.

“Com as altas nos preços resolvemos vender e compramos a casa no interior com um preço muito mais em conta, sem precisar de um novo empréstimo para adquirir um imóvel”, explica.
O brasileiro não conhecia a região, mas se encantou pelo imóvel atual de cinco quartos e três andares que precisou de poucas reformas, além de facilidade de acesso a grandes cidades espanholas.
“O preço foi um ponto crucial para a gente procurar uma região mais distante. Mas também tem a facilidade de serviços, como o bom atendimento em centros de saúde e nas escolas, a tranquilidade e o fato de não ter trânsito”, ressalta.
Mercado incipiente
Apesar do aumento expressivo, Ayres Netto, CEO da imobiliária The Agency, diz que o mercado imobiliário no interior de Portugal ainda é muito incipiente.
“O mercado cresce, mas não da maneira que poderia estar. Em várias cidades do interior houve uma redução no número de habitantes e passa a haver um monte de imóveis vazios que poderiam ser reintegrados ao mercado se houve condições para a pessoa morar e trabalhar ali”, analisa.
Segundo ele, as participações de vendas de imóveis no interior não chegam a 15% do total vendido pela empresa.

Netto destaca que alguns segmentos econômicos possuem grande potencial para a exploração do mercado imobiliário no interior, como é o caso do agronegócio e do turismo.
“Existem áreas gigantescas e pouco exploradas para produtores rurais. Há um clima bom, com fazendas a preços baratos do que no Brasil em que é possível instalar a família e fazer o negócio se desenvolver e progredir”, destaca, ressaltando que o fenômeno já começa a ser explorado por americanos e europeus.
O executivo aponta que tem havido um crescimento de propriedades vinícolas criadas por brasileiros, inclusive com joint ventures com portugueses.
Já em relação ao turismo, o executivo destaca a criação de pousadas, hotéis e outros locais de hospedagem. Ele cita o caso de São Pedro do Sul, região de águas termais próxima a Viseu, no norte do país, que vem se tornando uma referência para a prática de canoagem e esportes radicais.
“Existem nichos em determinadas cidades específicas em que é possível explorar uma determinada atividade ou indústria e estimular uma cadeia turística”, finaliza.
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