Constituição

Constituição portuguesa completa 50 anos; juristas destacam influência no direito brasileiro

Colóquio sobre os 50 anos da Constituição Portuguesa trouxe importantes nomes do direito português, além de autoridades brasileiras

Maio 30, 2026

Brasil esteve representado no debate sobre os 50 anos da Constituição Portuguesa de 1976. Crédito: Renan Araujo

Juristas, autoridades e importantes nomes do direito ressaltaram que a Constituição Brasileira de 1988, instaurada logo após o contexto do fim da ditadura militar teve inspiração na Constituição Portuguesa de 1976 e serviu para instalar diversas bases do direito e de garantias democráticas que são vigentes hoje na sociedade brasileira.

A Constituição Portuguesa de 1976 foi a principal influência sobre a Constituição Brasileira de 1988. A Constituinte brasileira regia a um período autoritário como tinha feito a portuguesa. Inscreveu no seu texto uma verdadeira constituição política, econômica e social”, afirmou o professor Manoel Gonçalves Ferreira Filho, docente emérito da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).

A declaração foi feita durante o colóquio “50 anos da Constituição Portuguesa”, realizado em Lisboa na sexta (29) para marcar as cinco décadas da Carta Magna aprovada após a Revolução dos Cravos, movimento que encerrou a ditadura portuguesa e abriu caminho para a redemocratização do país.

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O evento foi promovido pela Associação Portuguesa de Direito Constitucional (APDC), com o Alto Patrocínio da Presidência da República e os apoios do Fórum de Integração Brasil Europa (FIBE), da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP).

Importantes juristas portugueses como João Carlos Loureiro e Catarina Santos Botelho também ressaltaram os laços que unem Brasil e Portugal para a elaboração de suas constituições tem laços históricos antigos como a elaboração da Constituição Republicana portuguesa de 1911 que se baseou no texto brasileiro de 1891, formulada logo após o início da República. Além disso, a constituição brasileira serviu como inspiração para textos constitucionais de outros países lusófonos como Cabo Verde.

O presidente do FIBE, professor Vitalino Canas, destacou que há “uma relação muito estreita entre o Direito Constitucional português e o brasileiro. Às vezes nem nós nem os brasileiros reconhecem, mas sempre estiveram muito associados e sempre beneficiamos mutuamente do conhecimento uns dos outros”, disse.

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Durante o evento também estiveram presentes o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF) e Luis Felipe Salomão, vice-presidente do Superior Tribunal de Justiça.

Gilmar Mendes falou sobre como o direito brasileiro utiliza bases portuguesas até hoje. Crédito: Renan Araújo

Gilmar ressaltou que as bases da Constituição portuguesa de 1976 foram determinantes não apenas para o texto brasileiro como também para que o Supremo Tribunal Federal tivesse a atuação que possui hoje no país.

“Foram influências recebidas pelo Brasil em 1988 e que se converteram em pedras fundamentais sobre as quais se ergueu o STF que temos hoje, uma corte com capacidade institucional para fazer frente à inércia ou à violação constitucional pelos demais poderes, quando elas ameaçam a efetividade dos direitos fundamentais. Grande parte da força institucional do STF se deve a essa inspiração portuguesa”, afirmou o ministro.

Ele citou diversos mecanismos da justiça inspirados no direito português como o controle da omissão constitucional, a modulação de efeitos, instrumentos de declaração e análise de constitucionalidade, mecanismos de controle de leis municipais e de atos praticados pelo poder público e análises de liminares. Ele ressaltou que isso deve a uma história comum repleta de revoluções e de rupturas constitucionais.

“Ambos os países possuem a repulsa ao passado próximo de caráter autoritário, a crença de um projeto de constituição ambicioso e as múltiplas manifestações de direitos fundamentais que buscaram garantir a igualdade efetiva, a ampla participação democrática e uma intensa atuação do Estado no atendimento às demandas sociais”, definiu.

Já Luis Felipe Salomão destacou a apresentação da pesquisa “Constitucionalismo Global no Contexto Luso-Brasileiro”, desenvolvida em parceria com o FIBE, que propõe uma análise comparada entre o Supremo Tribunal Federal e o Tribunal Constitucional português. O estudo será apresentado até outubro deste ano.

“O trabalho examina como os dois tribunais têm respondido a questões que envolvem direitos fundamentais nos domínios da liberdade de expressão, para equilibrar a proteção do discurso livre com a responsabilidade das plataformas digitais, da saúde, especialmente direito de acesso a medicamentos essenciais e da moradia, em relação à insegurança habitacional em contextos de vulnerabilidade”, afirmou.

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O grande objetivo, segundo ele, é investigar se os dois tribunais chegam a respostas semelhantes quando confrontados com os mesmos problemas, considerando suas tradições e suas vias institucionais.

Queremos aproximar o pensamento jurídico brasileiro e europeu, internacionalizar a produção acadêmica desenvolvida no Brasil e trazer para o debate doméstico as reflexões que acontecem em outros sistemas democráticos”, ressaltou.

O evento foi finalizado pelo ex-presidente Marcelo Rebelo de Sousa que realizou uma homenagem especial aos professores Jorge Miranda e José Joaquim Gomes Canotilho, amplamente reconhecidos como dois dos principais arquitetos do pensamento constitucional português contemporâneo.

renan@revistaentrerios.pt