Jardim de papel

Essa festa em Portugal só acontece quando a cidade decide, e você vai querer ir

Evento no Alentejo, que só acontece 'quando o povo quer', transforma ruas com flores de papel, reunindo milhares de pessoas

Abril 17, 2026

Ruas completamente decoradas com milhões de flores de papel nas Festas do Povo. Crédito: site From Portugal (fromportugal.org). Foto por José Mendes.

Depois de 11 anos de espera, as tradicionais Festas do Povo voltam a transformar a vila de Campo Maior, no Alentejo, em um dos maiores palcos de cultura popular de Portugal. A edição deste ano está marcada para ocorrer entre os dias 8 e 16 de agosto e deve atrair mais de 500 mil visitantes. O evento se destaca por uma característica rara: só acontece “quando o povo quer”.

Reconhecidas como Patrimônio Cultural Imaterial da Unesco desde 2021, as festas não têm periodicidade fixa. A última edição ocorreu em 2015 e, antes disso, em 2011. O retorno, agora confirmado, é resultado de meses de preparação da comunidade local, organizada por meio da Associação Festa do Povo.

O principal destaque da celebração são as ruas completamente decoradas com milhões de flores de papel, feitas à mão pelos próprios moradores. Mais de cem ruas da vila alentejana serão transformadas em verdadeiros jardins coloridos, resultado de um trabalho coletivo que se estende por cerca de nove meses. As decorações, mantidas em segredo até a véspera, são reveladas de uma só vez, criando um impacto visual surpreendente.

Além do efeito estético, o evento mobiliza toda a comunidade. Os moradores se organizam em comissões de rua, definem temas, cores e padrões e trabalham, principalmente à noite, conciliando a produção com a rotina profissional. A competição amigável entre as ruas, que disputam a ornamentação mais criativa, reforça o espírito de união e identidade local.

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A edição deste ano também aposta na internacionalização, com o objetivo de atrair turistas de diversas partes do mundo. Há, ainda, oportunidades de voluntariado em áreas como logística, comunicação, recepção de visitantes e animação turística, ampliando a participação no evento.

O que torna as Festas do Povo únicas é justamente a ausência de um calendário fixo. A celebração acontece quando a comunidade entende que está pronta para planejar e executar a complexa tarefa de transformar ruas inteiras em cenários de papel.

No site oficial, a Associação Festa do Povo define a celebração com sensibilidade, traduzindo o que ela representa para os moradores: “As Festas do Povo não são apenas memória, nem apenas futuro. Vivem em um território emocional onde coexistem os que já partiram, os que estão e os que ainda virão. São a lágrima discreta que acompanha o sorriso da lembrança. São o orgulho silencioso de quem olha para cima e reconhece, em cada pétala, horas de trabalho invisível.”

A competição amigável entre as ruas, que disputam a ornamentação mais criativa, reforça o espírito de união e identidade local. Crédito: site From Portugal (fromportugal.org). Foto por José Mendes.

Além das ruas cobertas por flores — rosas, cravos, tulipas, glicínias e papoulas, todas feitas de papel — a festa também é marcada pelas chamadas “saias”: melodias leves e alegres, inspiradas em quadras populares, cantadas e dançadas ao som de pandeiretas e castanholas. Durante o evento, as casas permanecem de portas abertas, recebendo visitantes com gestos simples, como oferecer água fresca ou um lugar para descanso.

Os ingressos para a edição deste ano ainda serão disponibilizados. Até lá, o público pode acompanhar as novidades por meio do site oficial do evento.

Das origens religiosas ao reconhecimento internacional

As Festas do Povo têm raízes que remontam ao final do século XIX, embora sua origem esteja ligada a celebrações ainda mais antigas em homenagem a São João Batista, padroeiro da vila.

Registros históricos indicam que, no século XVIII, as festividades religiosas já faziam parte da vida local, especialmente para celebrar a libertação da povoação de um cerco ocorrido em 1712. Com o passar do tempo, essas celebrações evoluíram. Na segunda metade do século XIX, após um período de declínio, foram retomadas com novas características, deixando de ser exclusivamente religiosas e incorporando elementos populares, como bailes, touradas e iluminação das ruas.

As flores de papel, os enfeites de cartolina e os elementos decorativos são produzidos pelos moradores de cada rua. Crédito: site From Portugal (fromportugal.org). Foto por José Mendes.

Foi nesse contexto que surgiram as primeiras decorações com flores de papel, inicialmente simples, mas que rapidamente ganharam complexidade e dimensão. Em 1889, sob o nome de “Festas dos Artistas”, começaram a tomar forma aquelas que mais tarde se tornariam conhecidas internacionalmente como Festas do Povo.

A partir de 1921, a denominação atual se consolidou, embora a imagem do santo padroeiro ainda percorra as ruas em uma pequena procissão. O que permanece inalterado é o espírito coletivo: as flores de papel, os enfeites de cartolina e os elementos decorativos são produzidos pelos moradores de cada rua, em um trabalho voluntário que estimula a criatividade, o senso de pertencimento e uma saudável competição entre as comissões.

O município de Campo Maior, localizado na região do Alto Alentejo, tem atualmente cerca de 8 mil habitantes. Durante os dias de festa, esse número se multiplica diversas vezes, transformando a pequena vila em um dos destinos culturais mais movimentados do país.

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