A maioria das pessoas abre a torneira sem prestar atenção ao som da água. Luís Bittencourt faz o contrário. O músico e compositor brasileiro, radicado na região do Porto há 16 anos, investigou por mais de uma década como um dos elementos mais comuns da natureza poderia deixar de ser apenas paisagem sonora para tornar-se matéria artística. O resultado é Arquiteturas da água, espetáculo que convida o público a ouvir aquilo que, no cotidiano, quase sempre passa despercebido.
Entre instrumentos convencionais, recipientes com água, sensores, câmaras e tecnologia digital, o concerto propõe uma experiência que desafia as fronteiras entre música, performance e arte.

O pontapé inicial foi com uma apresentação no Teatro Helena Sá e Costa, no Porto, reunindo cinco obras homônimas intituladas Water music, assinadas por Tan Dun, Joseph Byrd, Toru Takemitsu, John Cage e Rui Penha. A partir de setembro, segue por outras cidades portuguesas.
Nesta entrevista a EntreRios, Bittencourt fala sobre a origem deste atual trabalho, o uso da água como instrumento e os próximos projetos da carreira.
Como surgiu a ideia de reunir cinco obras intituladas Water Music em uma mesma produção?
Luís Bittencourt: É raro na história da música erudita e contemporânea encontrar várias obras com exatamente o mesmo nome. Reuni compositores de épocas e abordagens completamente diferentes para mostrar ao público como cada um deles imaginou a sonoridade da água.
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O que motivou a criação de Arquiteturas da água?
Tudo começou em 2009, quando vim para Portugal fazer o mestrado em Performance, na área da percussão e do repertório contemporâneo. Ao pesquisar diferentes compositores, percebi que muitos utilizavam a água como elemento artístico. Isso despertou a minha curiosidade. Foram mais de dez anos catalogando essas obras até perceber que fazia sentido reuni-las em uma única apresentação.
O que o público pode esperar da experiência?
Cada compositor apresenta uma resposta diferente para a ideia de uma música aquática. Em alguns momentos, a água aparece apenas de forma simbólica, inspirando sonoridades produzidas por instrumentos. Em outros, é o próprio instrumento: tocamos, movimentamos e amplificamos os seus sons. Também utilizamos sensores, câmaras e tecnologia para criar os ruídos através de gestos.
Embora a proposta não seja ambiental, ela desperta reflexões sobre o uso da água?
Essa preocupação não aparece de forma declarada, mas faz parte da minha vida enquanto artista e cidadão. Sempre que possível, reutilizamos a água usada durante as apresentações. Se há plantas para regar ou alguma limpeza a fazer, essa água ganha um novo uso. Não podemos ignorar esse debate.
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Quais seus outros trabalhos marcantes?
Tenho orgulho de conseguir conciliar uma carreira artística com a pesquisa, porque isso não é simples. Também destaco o espetáculo Sons de resistência, em que utilizo objetos descartados, como paletes, bidões, garrafas e sacos plásticos. Além disso, tenho colaborado em cineconcertos, criando trilhas sonoras executadas ao vivo para filmes experimentais.
Além da carreira artística, há também o trabalho como pesquisador. Atualmente, qual é o foco da sua investigação?
Tenho desenvolvido estudos em torno do conceito de “instrumentalidade”. Hoje, refletimos sobre o potencial sonoro dos objetos. Uma cadeira, por exemplo, não é um instrumento, mas pode adquirir essa função dependendo do contexto artístico. Tenho procurado aprofundar esse conceito.
Quais são seus próximos passos?
Até o final do ano, a prioridade será continuar com Arquiteturas da água por Portugal. Também estudo uma edição discográfica do espetáculo, possivelmente em formato multicanal, para proporcionar uma experiência imersiva. Já para 2027, preparo um novo projeto inspirado na obra de Clarice Lispector, para piano, percussão e voz, além de novas participações em festivais de cinema com apresentações de bandas sonoras ao vivo.
Agenda – Espetáculo “Arquiteturas da Água”
27 de setembro: Black Box, Leiria, 19h30.
22 de outubro: Cine-Teatro Avenida, Castelo Branco, 21h30.
12 de novembro: Space Festival – Favo das Artes, Mondim de Basto, em horário a anunciar.
flavio@revistaentrerios.pt