Agricultura

Mão de obra imigrante desenvolve a agricultura em Portugal

Imigrantes já correspondem a mais de metade da força de trabalho e também ajudam a empregar no setor

Junho 11, 2026

Além da criação de gado Black Angus, brasileiro também cultiva cortiça em Portugal. Crédito_ Carol Ribas
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Os imigrantes têm um papel cada vez mais relevante em diferentes setores da economia portuguesa, e a agricultura é uma das áreas mais dependentes dessa mão de obra.

Segundo um estudo da empresa Consulai, profissionais de fora de Portugal já representavam além de 40% da força ativa no setor agrícola em 2023, somando mais de 40 mil pessoas — um número quatro vezes maior do que o registrado em 2014. Já uma estimativa da Confederação da Agricultura de Portugal (CAP) aponta que os estrangeiros correspondem a 53% da mão de obra da área.

Produção de tomates da empresa Hortomaria, que possui quase 100% de mão-de-obra imigrante. Crédito: Divulgação

“Os trabalhadores imigrantes são imprescindíveis para a sustentabilidade da atividade agrícola em Portugal. Completamos um ano de implementação do Protocolo de Cooperação para a Migração Laboral Regulada, um canal mais regulado que representa um passo em frente na resolução dos problemas relativos à contratação de trabalhadores imigrantes”, diz o secretário-geral da CAP, Luís Mira.

O protocolo é o Via Verde, que agiliza a emissão de vistos de trabalho em 20 dias para estrangeiros. Cerca de 60% desses vistos foram destinados ao setor agrícola. O cenário mudou na última década, e profissionais de Índia, Nepal e Bangladesh passaram a ocupar grande parte das vagas no setor agrícola, embora os brasileiros também tenham forte presença. Empresários consideram a participação dos imigrantes essencial para manter a atividade em funcionamento.

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Paulo Maria, sócio-gerente do Horto Maria, em A-dos–Cunhados, próximo a Torres Vedras, administra 80 pessoas em 25 hectares de produção de tomates e alfaces. Só o engenheiro técnico é português, enquanto o restante do grupo é formado principalmente por nepaleses e indianos, além de brasileiros, ucranianos e moldavos.

Eu não tenho portugueses na equipe exclusivamente porque não há mão-de-obra portuguesa. Eles não querem seus filhos na agricultura, querem que sejam doutores e engenheiros”, afirma.

O empresário chegou a destacar a importância da mão de obra estrangeira diante de André Ventura, líder do partido de extrema-direita Chega, em um ato de campanha para a Presidência da República, no início do ano. Na ocasião, contrariando o discurso anti-imigração defendido pelo político, afirmou: “Se os trabalhadores estrangeiros fossem embora hoje, eu fechava a empresa imediatamente”.

Para Paulo Maria, os imigrantes têm papel fundamental nas contribuições para a Segurança Social, na arrecadação de impostos e no crescimento da economia. O empresário rebate críticas relacionadas à exploração de mão de obra barata e afirma que a empresa mantém até fila de espera de candidatos às vagas. “O principal ativo são nossos colaboradores, e estimamos muito a todos, não importando raça ou nacionalidade”, afirmou.

A brasileira Loid Silva trabalha no Horto Maria desde 2008, ano em que chegou a Portugal, e afirma sentir orgulho da trajetória construída na plantação. “Para mim, tem sido uma família, somos tratados com muito respeito. Eu não me veria trabalhando em outro lugar”, fala.

Ela explica que a presença de brasileiros nas fazendas diminuiu nos últimos anos, principalmente pela busca por oportunidades em grandes cidades. Loid também aponta a baixa adesão de portugueses ao setor como fator relevante.

“Tem dias que é um pouco sofrido, com calor, peso para carregar. Às vezes trabalhamos aos sábados, nos feriados, temos que fazer horas a mais, e os portugueses não querem fazer isso”, afirma. Os brasileiros não são apenas parte da mão de obra no agronegócio, mas também empregam os compatriotas nas produções.

Esse é o caso de Adauto Campos, empresário de Juiz de Fora, interior de Minas Gerais, que adquiriu, há 8 anos, a propriedade Herdade Minas, na localidade de Poceirão, em Setubal. Na área de 240 hectares, ele cultiva cortiça e também possui 170 cabeças de gado da raça Black Angus.

A reprodução e criação das vacas acontece até o momento do desmame, quando ele vende os animais para a rede de supermercados Pingo Doce. Adauto destaca que sempre busca realizar melhorias na propriedade e que utiliza tecnologias para um cultivo mais produtivo do gado.

Adauto Campos, ao lado do filho Pedro: empresário adquiriu sua fazenda e emprega brasileiros no país. Crédito: Carol Ribas“As vacas mudam de pasto de 12 em 12 horas e temos um sistema moderno de cerca elétrica que permite que elas não se movimentem muito para não perder gordura e não estragar o pasto. Também fazemos uma identificação com todos os dados e informações dos bezerros para que a gente possa ter um controle completo do gado e possa melhorar a produtividade”, relata.

Ele também investe em um acompanhamento completo de vacinas aplicadas por um órgão do governo duas vezes ao ano, registros dos animais e em cursos com profissionais especializados. Para o futuro, também pensa em utilizar um sistema de monitoramento por GPS para que não haja a necessidade de utilização de cercas. Com isso, ele já planeja aumentar a quantidade de cabeças de gado para melhorar sua rentabilidade.

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Morando em Cascais com a mulher e os filhos, o empresário está sempre presente na fazenda para cuidar da produção, mas conta com a ajuda de um casal de goianos, Jaime e Marta Aquino, que possuem dois filhos e vivem na propriedade. O casal vive no país europeu há oito anos para oferecer melhores condições de educação e segurança para os filhos.

Durante a pandemia, eles passaram a trabalhar na área da agricultura, com a qual já tinham experiência no Brasil. Há três anos eles passaram a morar e trabalhar na fazenda de Adauto ajudando nos cuidados com o gado, na criação das galinhas e bezerros e no cultivo dos sobreiros, árvores que produzem as cortiças.

Jaime e Marta Aquino se dizem satisfeitos com o trabalho na agricultura em Portugal. Crédito: Carol Ribas

A gente viu um futuro muito grande aqui. Não pagamos renda, água ou luz, temos segurança e o serviço da Câmara para levar e trazer nossos filhos da escola enquanto  e conseguimos a gente trabalha aqui”, ressalta.

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Para além disso, ele também destaca o aspecto de inovação e de tecnologia utilizada pela fazenda. “Por isso que a gente gosta de estar aqui, o Adauto é uma pessoa que tem visão de futuro, com quem a gente aprende todo dia sobre novidades e tecnologias que a gente nunca tinha ouvido falar no Brasil então isso dá um futuro para a gente também”, destaca Jaime.

Inovação no meio rural

Em sua fazenda, Adauto Campos ressalta que muitos agricultores não pensam em realizar investimentos e melhorias em suas propriedades por representar, à primeira vista, um custo ou por já estarem acostumados a um único tipo de cultivo.

“Não podemos ter medo de começar algo novo, de realizar mudanças e ficar com aquele pensamento de que não vai dar certo. É preciso investir, ter visão empreendedora e buscar os melhores produtos. Ao introduzir essas melhoras isso vai gerar mais rentabilidade e buscamos melhorar para valorizar a terra”, destaca.

Tem investimentos que podem demorar mas uma hora você colhe os frutos”, afirma o empreendedor que já cultivava o black angus no Brasil, mas passou a utilizar novas técnicas em sua propriedade em Portugal, inclusive inspirando outros vizinhos a fazer o mesmo.

O empresário afirma que é possível fazer dinheiro em Portugal ao realizar os investimentos certos e que o campo traz diversas oportunidades. Uma delas são os subsídios da União Europeia, que podem custear até 70% do valor dos equipamentos para a produção no campo e para instalações de paineis fotovoltaicos na fazenda.

“Temos que fazer todo um projeto e justificar, mas com organização dá para fazer. Aqui a gente passa a ter mais segurança e isso motiva as pessoas a ficarem no campo”, relata.

Ele também ressalta que a presença em Portugal também não pode se limitar apenas ao próprio país. “Se você monta a empresa aqui pode vender para a Espanha, França e vários outros países. Portugal oferece muitas possibilidades de crescer e ganhar dinheiro”, finaliza ele.

renan@revistaentrerios.pt