O dia 1º de maio vai além do calendário: é um convite a olhar para quem move o país todos os dias. Em Portugal, essa força tem sotaques diversos e histórias que cruzam fronteiras — trabalhadores estrangeiros que ajudam a sustentar a economia e, ao mesmo tempo, transformam o tecido social com novas culturas, experiências e perspectivas.
“A mão de obra imigrante contribui não só para a continuidade das atividades, mas também para a renovação do mercado de trabalho. Para além disso, traz diversidade de experiências, competências e uma forte capacidade de adaptação, o que enriquece o tecido econômico e social do país. Quando bem integrada, tem um impacto positivo não apenas na produtividade, mas também na dinâmica das comunidades”, diz Higor Cerqueira, criador e diretor pedagógico da Prepara Portugal, centro de formação que atua junto à comunidade imigrante.
Além de potencialmente produzir efeitos econômicos que podem desacelerar o crescimento e aumentar custos operacionais, também há impactos no campo social, afetando a diversidade cultural e o dinamismo das comunidades locais.
“Muitos estrangeiros, inclusive brasileiros, têm sido fundamentais para revitalizar cidades do interior e equilibrar a pirâmide etária portuguesa, hoje bastante envelhecida”, analisa Luiza Costa Russo, advogada especialista em Cidadania Europeia e diretora operacional da Gioppo e Conti.
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Contribuições para a economia e para a previdência
Eles se tornam cada vez mais essenciais em um momento em que um estudo desenvolvido pelo Centro de Formação Prepara Portugal, com base em dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (Aima), da Pordata e do próprio sistema previdenciário, aponta que o país europeu precisa de 1,3 milhão de novos trabalhadores até 2030 para garantir o equilíbrio da sua Segurança Social.
“Com base nos registros oficiais, o estudo estima que, para atingir esse equilíbrio até 2030, seria necessário um reforço acumulado entre 1,2 e 1,3 milhões de trabalhadores ativos líquidos. Em termos estruturais, este volume corresponde à necessidade de compensar a aposentadoria de cerca de 500 mil pessoas, num país marcado pelo envelhecimento da população”, explica Cerqueira.
Entre 2010 e 2025, a participação dos trabalhadores imigrantes na base de contribuições da Segurança Social em Portugal mais que duplicou, de cerca de 3%, para uma projeção de 6% do total.
Em 2025, os trabalhadores estrangeiros entregaram pouco mais de 4,1 bilhões de euros à entidade responsável pela previdência portuguesa. No mesmo período, receberam 811 milhões de euros em prestações sociais. O saldo — 3,2 bilhões de euros — foi descrito pelo Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social (MTSSS) como amplamente positivo e representa um crescimento de 11% face ao ano anterior.
“Precisamos de pessoas mais jovens para ajudar nessa reconstrução. E todos os portugueses têm que reconhecer o papel importantíssimo que os povos de outros países têm para garantir o nosso bem-estar do dia a dia”, ressalta Luisa Loura, diretora da Pordata.
Entre 2010 e 2024, o número de imigrantes residentes passou de cerca de 430 mil para mais de 1,5 milhões. Aproximadamente 85% estão em idade ativa e, em 2025, a taxa de emprego dessa população atingiu 67%, aproximando-se da dos nacionais.
Um estudo de 2024 feito pela Faculdade de Economia da Universidade do Porto sustenta que, sem reforço migratório, o crescimento econômico permanecerá anêmico e a população continuará a encolher. Num cenário de crescimento médio anual de 1,11% até 2033, a queda populacional pode chegar a 5,8%.
Mas para que a contribuição seja de fato efetiva, segundo Cerqueira, é preciso que Portugal reforce a sua integração, facilite o acesso à informação e promova formação alinhada com o mercado de trabalho e garantir processos mais ágeis de inserção profissional.
“Também é importante incentivar ambientes de trabalho inclusivos, onde haja valorização das competências e igualdade de oportunidades. Quando o imigrante consegue aceder a formação, compreender o mercado e ter estabilidade, passa a contribuir de forma mais consistente — o que beneficia tanto as empresas como o próprio país”, analisa ele.
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