Mayra Andrade carrega Cabo Verde na voz e na forma de enxergar o mundo. Chegou ainda bebê à Praia, capital do país, na Ilha de Santiago, vinda de Cuba, onde nasceu. Filha de uma família de diplomatas, passou a infância entre Senegal, Angola e Alemanha, até se mudar, aos 17 anos, para Paris. Lá ingressou no curso de Arte e Comunicação, mas decidiu abandonar a universidade para seguir a vocação que a transformaria em uma das maiores vozes da música cabo-verdiana. A discografia de Mayra Andrade inclui 4 álbuns de estúdio e 2 álbuns ao vivo.
Aos 40 anos, vivendo em Lisboa com a filha, Dayo de 3 anos, ela se consolidou como uma das principais embaixadoras da cultura cabo-verdiana, misturando ritmos como morna e funaná ao pop, jazz e influências brasileiras. Em um momento de crescente projeção internacional de Cabo Verde, Mayra celebra o orgulho de suas origens e defende a cultura como uma poderosa ferramenta para aproximar povos, romper estereótipos e reafirmar a riqueza e a diversidade do continente africano.
“A África é muito mais diversa e rica do que os estereótipos costumam mostrar”, diz Mayra Andrade.

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Como a sua identidade cabo-verdiana influencia a forma como você leva a cultura africana para o mundo?
Não sinto que precise representar toda a África, porque o continente é diverso demais para caber em uma única narrativa. O que faço é ser fiel à minha experiência como cabo-verdiana. O país nasceu do encontro entre povos, viagens e resistência, e essa complexidade está na minha música. É desse lugar que dialogo com o mundo e construo pontes.
Você cresceu entre diferentes países. Como essas referências convivem na sua arte?
Cresci ouvindo idiomas, ritmos e histórias diferentes. Nunca precisei escolher uma influência em detrimento da outra. A música brasileira, as sonoridades africanas e a vida em Paris se misturaram naturalmente. Minha arte nasce desse encontro de experiências.
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A música ainda é uma das formas mais poderosas de mudar a imagem da África?
Sim. A música primeiro toca a emoção e depois desperta a curiosidade. Muitas pessoas conheceram Cabo Verde pelas minhas canções. Ela não resolve problemas estruturais, mas quebra preconceitos e aproxima as pessoas de uma África muito mais diversa e rica do que os estereótipos costumam mostrar.

Cabo Verde vive um momento de maior visibilidade internacional. O que isso representa?
É um enorme orgulho e também uma responsabilidade. A música abriu muitas portas para o país e agora o esporte amplia essa visibilidade. Isso fortalece o turismo, a economia, e, principalmente, a confiança que temos em nós mesmos.
Ser mãe mudou a forma como você pensa o legado da cultura africana?
Ainda mais. Quero transmitir à minha filha a tradição oral, o respeito pelos mais velhos, o senso de comunidade e o orgulho das nossas raízes. Saber de onde viemos nos dá liberdade para dialogar com o mundo sem perder a identidade.

Como a cultura pode ajudar no combate ao preconceito?
Ela humaniza. Quando uma música, um filme ou uma história nos emociona, fica mais difícil negar a dignidade do outro. Ela não substitui políticas públicas, mas cria um terreno fértil para mudanças e nos lembra que direitos humanos dizem respeito a todos.
Quais são os maiores desafios das mulheres africanas hoje?
Não existe uma única realidade para as mulheres africanas, mas temas como violência de gênero e desigualdade de oportunidades atravessam muitos países. A arte ajuda a dar visibilidade a essas histórias, mobilizar a sociedade e inspirar outras mulheres.
Sua relação com o Brasil é muito forte. O que mais marcou sua formação?
Cresci ouvindo Caetano Veloso, Maria Bethânia, Chico Buarque, Tom Jobim, Djavan e Elis Regina. A MPB moldou meu ouvido e minha sensibilidade. Mais do que isso, reconheço uma afinidade profunda entre Brasil e Cabo Verde. Quando os brasileiros estiverem por lá, vão descobrir também uma parte da própria história e da herança cultural que compartilhamos.
Esta reportagem foi publicada originalmente na edição impressa da EntreRios, disponível mensalmente em bancas de Portugal. Para ter acesso a conteúdos exclusivos e receber a revista em casa, assine aqui.
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