O retorno de Neymar ao Santos tinha tudo para ser um roteiro pronto de um filme de sucesso. O enredo tinha elementos sedutores: o ídolo que volta para casa, reencontra o seu povo e se reergue para ser o protagonista da Seleção Brasileira na Copa do Mundo. Era uma aposta afetiva, esportiva e simbólica — do clube, da torcida e, em alguma medida, da própria Seleção. Mas o que se vê até aqui está longe de um blockbuster. O que se vê na tela é um documentário incômodo sobre o amargo regresso de um ídolo.
Lesões, ausências e atuações sem brilho passaram a ser mais frequentes do que gols, dribles e assistências. Neymar já não muda jogos. Quando está em campo, raramente decide. Para quem fez carreira sendo ruptura, isso não é detalhe — é sintoma.
Mas o problema não é apenas técnico. Há algo mais profundo em jogo. A relação com a torcida do Santos, que deveria ser seu porto seguro nesse retorno, começa a se deteriorar. E ganhou um símbolo claro na derrota para o Fluminense, no último domingo, quando Neymar deixou o campo tampando os ouvidos — um gesto pequeno, mas carregado de significado.
Não é uma reação isolada. É o retrato de um jogador pressionado, talvez esgotado, que já não transforma expectativa em combustível. E, nesse processo, vê a Copa ficar cada vez mais distante.
O contexto também mudou. Neymar já não é o jovem irreverente que carregava o Brasil no talento e no improviso. Aos 30 e tantos anos, com um histórico recente de lesões, o que se espera é consistência, liderança e leitura de jogo. É justamente aí que surgem as dúvidas.
Ainda há talento. Isso não está em discussão. Mas já não há certeza. E o debate mudou de eixo: não é mais sobre qual será o papel de Neymar na Copa — é sobre se ele estará lá.
Mesmo ainda considerado o maior jogador brasileiro, hoje poucos cravam que ele será o que Messi foi para a Argentina em 2022. Neymar ainda tem recursos para responder. Seu talento não se perde. Mas a discussão já mudou de patamar.
Hoje, a distância entre Neymar e a Copa é maior do que os mais de oito mil quilômetros que separam o Brasil da América do Norte. E nada indica que diminuirá até o dia 18 de maio, data da última chamada do comandante Ancelotti para o sonho do Hexa.