Esporte

O jogo que pode fazer de Messi Dios

Quarenta anos após a tarde que transformou Maradona em Deus, Argentina e Inglaterra voltam a se enfrentar em uma batalha de Copa do Mundo

Julho 13, 2026

Maradona usa a mão para vencer o goleiro inglês Peter Shilton no primeiro gol da vitória argentina sobre a Inglaterra na Copa do México, em 1986 Crédito: Reprodução Instagram
Maradona usa a mão para vencer o goleiro inglês Peter Shilton no primeiro gol da vitória argentina sobre a Inglaterra na Copa do México, em 1986 Crédito: Reprodução Instagram
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Port Stanley, ou Puerto Argentino, 14 de junho de 1982. Centenas de jovens humilhados marcham de cabeça baixa, em fila, rumo ao porto da cidade. Era o fim do Las Malvinas son Argentinas. Em pouco mais de dois meses, o sonho da retomada das ilhas, algo que a Argentina busca desde o século XIX, virou um pesadelo que custou a vida de 649 jovens soldados e de boa parte do orgulho argentino. Quatro anos e oito dias depois, uma nova guerra seria travada. Dessa vez, o teatro de operações atendia pelo nome de Estádio Azteca, na Cidade do México.

Nas arquibancadas, ingleses e argentinos se digladiavam como se estivessem em Goose Green ou Darwin, dois cenários onde se travaram batalhas decisivas para a vitória inglesa no Atlântico Sul. Alguns deles eram inclusive veteranos do conflito. A poucos metros dali, no gramado, havia um homem que, mais do que vencer uma partida de futebol, entrou em campo para vingar um país inteiro e sair dele quase como um Deus.

Naquele 22 de junho, portanto, não houve apenas um jogo de futebol. Houve uma batalha.

Maradona marcou os dois gols do triunfo argentino por 2 a 1. No primeiro, usou a mão e atribuiu o lance a uma intervenção divina: nascia ali a mítica La Mano de Dios. No segundo, atravessou metade do campo, deixou cinco adversários para trás e marcou aquele que seria consagrado como o Gol do Século.

Em poucos minutos, com um gol proibido e outro impossível, El Diez deixou de ser apenas um craque. Tornou-se uma espécie de divindade argentina.

É por isso que a semifinal desta quarta-feira, em Atlanta, não será um jogo qualquer para Lionel Messi.

Aos 39 anos, campeão mundial, vencedor de oito Bolas de Ouro e dono de quase todos os recordes que um jogador poderia almejar, Messi já derrubou o principal argumento de quem o considerava menor que Maradona. Ao levantar a Copa de 2022, deixou de ser o gênio sem Mundial e conquistou o lugar que lhe era negado no altar argentino. Mas existe algo que ainda pertence exclusivamente a Diego: a Inglaterra.

Maradona não virou Deus apenas porque foi campeão do mundo. Virou porque encarnou, durante 90 minutos, a raiva, o orgulho e a necessidade de reparação de um país derrotado e humilhado quatro anos antes, nos gélidos campos de batalha das Malvinas, ou Falklands, como os vencedores as chamam. Seus gols não devolveram Las Islas à Argentina nem apagaram o sofrimento e a dor da derrota. Mas deram a milhões de argentinos uma vitória que, naquele momento, significava muito mais do que uma vaga na semifinal.

Messi terá agora a chance de entrar nesse mesmo espaço mítico.

Argentina e Inglaterra se enfrentam por um lugar na final. De um lado, a seleção dos inventores do futebol moderno e que ainda controlam o território sonhado pelos argentinos. Do outro, um país que transformou essa disputa em parte de sua identidade nacional.

A ferida das Malvinas segue aberta. Continua presente nos discursos políticos, nas arquibancadas, nas músicas das torcidas e até nos mapas argentinos, que as identificam como parte da nação. Cada encontro com os ingleses reacende uma história que nunca encontrou um ponto final.

Diego teve 1986. Messi já tem 2022. Falta-lhe, porém, a Inglaterra.

Como diz a música símbolo da hinchada e dos jogadores argentinos nesta Copa, La Cuarta Estrella: “Por Malvinas/Por Diego/Por la última de Leo (Messi)/Argentina, quiero verte bicampeón”.

Se Messi conseguir, talvez se torne aquilo que durante décadas pareceu impossível na Argentina: ser maior do que Dios.