VIAGEM

Passeio de jipe no Douro revela mirantes, vinhedos e caminhos que escapam das rotas tradicionais

Empresa criada por moradores de Alijó aposta em percursos off-road em um lado menos conhecido do Douro, com paradas em pequenas propriedades, mirantes e produtores locais

Julho 2, 2026

Fazer um passeio de jipe no Douro é perceber que a região guarda muito mais do que aquilo que aparece nos cartões-postais. Crédito: Reprodução/Instagram

Quem percorre o Douro pela primeira vez normalmente segue pelas estradas panorâmicas ou embarca em um cruzeiro pelo rio. Mas basta deixar o asfalto para trás para descobrir outra região. Entre Alijó e o Vale do rio Tua, antigos caminhos rurais levam a mirantes pouco conhecidos, pequenas propriedades familiares e paisagens que raramente aparecem nos roteiros convencionais.

É justamente esse Douro que a Grapeland apresenta desde 2017. A EntreRios percorreu o caminho a bordo de um dos jipe da empresa criada pelos sócios Paulo Magalhães e Raffaele Batista, a empresa nasceu com a proposta de mostrar a região a partir da perspectiva de quem cresceu ali.

“A gente tenta fugir do turismo de massas”, resume Paulo Magalhães. A filosofia aparece logo nos primeiros quilômetros do passeio. Em vez de seguir pelas rodovias, o jipe entra em antigas estradas utilizadas por moradores para chegar às vinhas e às aldeias. É possível também percorrer os chamados “caminhos romanos” no passeio.

Ao longo de aproximadamente 30 quilômetros, o roteiro passa por vinhedos, pequenas comunidades e propriedades que ajudam a entender por que o Douro foi reconhecido como Patrimônio Mundial pela Unesco.

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Um dos destaques é o Mirante de Santa Marinha, em Castedo do Douro, localizado entre 550 e 600 metros de altitude. Dali é possível observar o Vale do Tua e, em dias de céu aberto, enxergar serras dos distritos de Bragança e Viseu.

Outro ponto de parada é o Mirante do Castedo de Santa Maria, de onde se vê a foz do Vale do rio Tua e parte da paisagem moldada pelos socalcos, as tradicionais vinhas em degraus que caracterizam a região.

O percurso também passa pela Quinta Casal da Granja, conhecida pela produção de vinhos brancos, e pela Quinta do Sol, empreendimento de turismo rural administrado por Sara Mota. O projeto aposta em hospedagem integrada à natureza e em experiências ligadas à sustentabilidade, acompanhando uma tendência que vem ganhando espaço na região.

O passeio é um convite a observar detalhes que normalmente passam despercebidos.

“Há coisas pelas quais passamos todos os dias, mesmo sendo daqui, e nem percebemos”, conta o guia Nuno Rodrigues, natural de Favaios. “Aprendo muito com as perguntas que os visitantes fazem. Às vezes perguntam sobre o solo, sobre a paisagem… coisas em que nunca tínhamos pensado”, revela.

O passeio também revela como o Douro mudou nas últimas décadas. Nas vinhas, práticas agrícolas mais sustentáveis começaram a substituir o uso intensivo de herbicidas e outros produtos químicos, permitindo uma recuperação gradual da biodiversidade.

“Hoje já se nota claramente uma abordagem mais sustentável nas vinhas. A natureza está voltando”, afirma Nuno.

Ele diz que a diferença pode ser percebida até pela quantidade de aves de rapina.

“Quando eu era criança, via uma ave de rapina a cada duas semanas. Hoje vemos dez por dia. Já vemos até águias, algo de que não me lembro quando era pequeno”.

 

Ao longo do trajeto, a paisagem muda conforme o relevo. Saindo do vale em direção ao planalto de Favaios, a temperatura diminui e o tipo de cultivo também se transforma. Conhecida pela produção de vinhos brancos e pelo tradicional pão de Favaios, a região possui características diferentes das áreas mais próximas ao rio.

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“Há cerca de 100 metros de diferença de altitude entre o vale e o planalto. Isso faz diferença até na produção dos vinhos, porque a temperatura é mais baixa”, explica o guia.

Embora os passeios de jipe sejam a principal atividade da empresa, a proposta vai além do off-road. Os roteiros podem incluir caminhadas, passeios de bicicleta elétrica, provas de vinhos com produtores locais, caiaque no Vale do Tua, passeios de buggy e visitas a quintas.

“Os jipes são o nosso core. Mas conseguimos montar experiências diferentes ao longo do dia, combinando outras atividades para que cada roteiro seja personalizado”, afirma Paulo.

A empresa recebe principalmente turistas norte-americanos, mas também portugueses e visitantes de outros países interessados em conhecer um Douro distante das rotas tradicionais. Um dos projetos mais recentes é integrar os passeios aos Passadiços do Tua, oferecendo transporte em jipes para quem deseja completar parte do percurso com paradas em mirantes, vinícolas e outros pontos de interesse.

Para Paulo Magalhães, a proposta continua sendo a mesma desde a criação da empresa: mostrar um Douro que normalmente permanece escondido para quem passa apenas pelas estradas principais.

O passeio termina, mas deixa a sensação de que o Douro não cabe em um único roteiro. Entre o vale e o planalto, cada estrada de terra leva a uma nova paisagem, uma história ou um produtor disposto a explicar por que este território vai muito além das vinhas vistas da janela do carro ou do convés de um barco.

flavio@revistaentrerios.pt