Portugal tornou-se, nos últimos dias, ponto de encontro para discutir o avanço da energia eólica offshore no Brasil, setor estratégico que aposta na geração de energia em alto-mar. Empresários, representantes de associações, do governo federal e estaduais, além de universidades, participaram das agendas voltadas ao tema. Entre as autoridades presentes, esteve o senador Fabiano Contarato, presidente da Comissão de Meio Ambiente do Senado.
O encontro surgiu em um momento em que o Brasil acabou de aprovar um marco legal para o setor, por meio da Lei nº 15.097/2025, e, por meio do CNPE (Conselho Nacional de Política Energética), no mês de abril, definiu as primeiras diretrizes para regulamentar as regras para a sua execução no país.
Com base nisso, no último dia 7, também foi lançada a Coalizão Eólica Marinha, que reúne os diversos atores envolvidos com o segmento.
A previsão do Banco Mundial é que, segundo o Banco Mundial, até 2050, poderão ser movimentados R$ 900 bilhões na economia brasileira com as atividades relacionadas à indústria.
Portugal é referência no assunto
Em 2020, o país fundou o projeto WindFloatAtlantic e já gerou mais de 409 gigawatts (GW) de energia eólica em seu parque eólico flutuante localizado em Viana do Castelo, na região norte do país. Esse foi o primeiro projeto do tipo localizado na Europa continental. Portugal ainda tem projetos para outros dois parques eólicos, uma na mesma cidade e outro em Figueira da Foz, mas ainda em fase de projeto.

Comitiva brasileira visitou produção em eólica offshore em Viana do Castelo, norte de Portugal. Crédito: Divulgação
A delegação brasileira que esteve no país europeu também realizou uma visita ao WindFloat Atlantic, à principal conferência europeia de energia eólica, a WindEurope, e também à sede do Global Wind Energy Council (GWEC), organização mundial do setor de energia eólica com mais de 1500 empresas de mais de 80 países como membros e que possui sede em Lisboa.
Apesar de ser expoente por conta do projeto em Viana do Castelo, o cenário da indústria eólica offshore ainda é tímido. Segundo a WindEurope, a Europa possui a capacidade de produção de 291 GW dessa energia, sendo 254 GW em terra (onshore) e apenas 37 GW no mar (offshore). Em todo o mundo a produção das offshore é de 83 GW em 19 países.
O setor olha para esse mercado com uma perspectiva otimista e destaca que o crescimento médio anual nos últimos 10 anos foi de 10% e deve avançar entre 15 e 28% para a próxima década. Além disso, em maio do ano passado, havia mais 48GW em construção.
Para Blackwell, é essencial ampliar a capacidade das eólicas offshore em um momento em que a Europa passa por uma necessidade de aumentar a produção de energia, especialmente por conta das guerras da Ucrânia e do Irã.
“Essa é uma fonte de energia limpa com grandes projetos que aumentam a produção em larga escala e que também é bastante competitiva em relação a outras fontes. Ela pode ser uma fonte para diminuir a dependência do petróleo, por exemplo”, afirma ele.
Segundo ele, Brasil e Portugal possuem grande capacidade de aumentar essa produção. “Portugal já produz a maior parte de sua energia com fontes renováveis, é um país marítimo, com muitos ventos do Oceano Atlântico e que já possui um grande projeto. Já o Brasil possui um litoral muito grande com águas não muito profundas, com uma indústria eólica forte e bons ventos”, analisou.
Roberta Cox, diretora-presidente da Coalização Eólica Marinha (CEM), destaca que o Brasil deu um passo importante com a publicação das diretrizes sobre o que deve conter no decreto regulamentador do Ministério de Minas e Energia.
De acordo com ela, apenas com o decreto será possível avaliar a viabilidade econômica, técnica e ambiental para que os primeiros projetos possam sair do papel. As expectativas quanto ao potencial do setor, porém, são grandes.

Roberta Cox, presidente da Coalizão Eólica Marinha. Crédito: Divulgação
“O Brasil tem um potencial enorme de 1.200 GWh de energia. Para se ter uma ideia, hoje, com todas as fontes de energia temos 240 GWh. Por isso esse decreto regulamentador é tão importante, para que a gente entenda quais são as melhores áreas, entender a viabilidade e o que precisamos endereçar para seguir com esses projetos”, ressalta.
“As eólicas offshore podem ser uma solução para a dependência que existe dos países europeus com óleo e gás. É muito importante conseguir descarbonizar e ampliar a utilização de energias renováveis e as eólicas offshore tem uma capacidade gigantesca de produção de energia, além de serem um diferencial para a segurança energética que o mundo precisa avançar”, explicou.
Durante a missão, os governos do Rio Grande do Sul e do Rio Grande do Norte também assinaram seus termos de compromisso para a adesão à Coalizão Marinha Eólica, se juntando ao Rio de Janeiro entre os estados participantes, o que os possibilitará participar das discussões técnicas e estratégias para o setor.
Elbia Gannoum, presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica e Novas Tecnologias (ABEEólica) explica que o Brasil investiu fortemente na produção de energia renovável a ponto de ter uma produção maior que a demanda necessária, o que pode transmitir uma percepção de crise para o setor.

Presidente da ABEEólica destacou a importância das energias renováveis. Crédito: Divulgação
Segundo ela, porém, em um contexto de crise de petróleo e de novas formas de energia, esse poderá ser um grande diferencial para o Brasil.
“A busca por energias renováveis é uma estratégia dominante para qualquer economia e o avanço do Brasil nessa área foi acontecendo de forma natural ao longo do tempo. E esse é o caminho para a estabilidade econômica de qualquer governo soberano”, destaca.
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