Milhões de euros no bolso, sucesso na profissão, fama e um corpo atlético, esculpido ao longo de uma vida inteira dedicada ao futebol. O protótipo perfeito, sonho de tantos jovens que ficam pelo caminho, entre a várzea e os testes frustrantes nos clubes, nem sempre é o que parece, sinônimo de uma vida feliz. Aconteceu com Daniel Alves. Aconteceu com Robinho. Aconteceu com cinco jogadores de futebol inscritos na última Copa do Mundo. Aconteceu com o quase anônimo Léo Derik, do Athletico Paranaense. Todos carregam na testa e no currículo campeão a mancha da acusação por crime sexual.
A recente condenação do lateral-esquerdo Léo Derik a 13 anos de prisão por dois estupros contra uma ex-companheira mais uma vez leva o futebol às páginas policiais. A decisão em primeira instância determinou o cumprimento inicial em regime fechado, além do pagamento de R$ 20 mil de indenização à vítima. Cabe ainda recurso ao jogador que, aos 21 anos, inclui seu nome na mais abominável das listas.
Daniel Alves, 43 anos, e Robinho, 42, companheiros de seleção brasileira na Copa de 2010, na África do Sul, foram apresentados ao sistema carcerário em épocas bem próximas. Preso em 2023, na Espanha, sob a acusação de ter estuprado uma jovem em uma discoteca em Barcelona, Daniel passou mais de um ano atrás das grades até ter sua condenação anulada no ano passado pelo Tribunal Superior de Justiça da Catalunha, que enxergou “lacunas e imprecisões” na versão da acusação. Já Robinho cumpre no Brasil, desde março de 2024, pena de nove anos de prisão por participação em um estupro coletivo ocorrido na Itália, em 2013, contra uma mulher albanesa.
Chama a atenção que a última Copa do Mundo tenha reunido cinco jogadores que estiveram ou estão sob a mira de investigação por acusações de crimes sexuais. O atacante Ryan Mendes, capitão de Cabo Verde, foi acusado de estupro, em março, por uma brasileira. O volante japonês Kaishu Sano foi preso em Tóquio em 2024, após acusação de agressão sexual. Seu compatriota, Junya Ito, atacante, acabou denunciado de abuso sexual por duas mulheres que estariam embriagadas. Principal jogador do Marrocos, Achraf Hakimi foi acusado de estupro por uma mulher de 24 anos na França em 2023 e irá a julgamento pelo crime. Thomas Partey, de Gana, responde a sete acusações de estupro e agressão sexual no Reino Unido. Ele chegou a desfalcar a seleção de Gana na estreia da Copa, impedido de entrar no Canadá, já que teve seu visto negado por causa da investigação.
PhD em Psicologia Sócio Cognitiva, Paulo Ribeiro, que atua no Flamengo, atribui tantas coincidências trágicas à cultura da “hipermasculinidade”: “A ocorrência de casos de assédio sexual e estupro no contexto do futebol masculino é um fenômeno complexo estudado intensamente pela psicologia social, pela sociologia do esporte e pela neurociência comportamental. Não se trata de uma exclusividade do futebol, mas a modalidade masculina carrega particularidades históricas e estruturais que potencializam esses comportamentos. O futebol masculino historicamente se estruturou como um dos maiores bastiões da masculinidade tradicional e hegemônica. Desde as categorias de base, os atletas são inseridos em uma subcultura, muitas vezes chamada na psicologia social de jock culture, onde traços como dominância, virilidade agressiva, negação da vulnerabilidade e a coisificação do corpo feminino são validados para a aceitação no grupo”, explica o psicólogo.
O futebol que integra e enriquece pode ser também espelho do lado pior da sociedade.