Saúde

Banho de floresta: o que é, como funciona e por que a ciência recomenda

Estudos apontam que o contato com a natureza tem efeitos concretos no controle do estresse e da ansiedade

Junho 18, 2026

Banho de floresta: o que é, como funciona e por que a ciência recomenda. Crédito: Divulgação
Banho de floresta: o que é, como funciona e por que a ciência recomenda. Crédito: Divulgação

Respire fundo. Imagine o som sentir o cheiro da terra molhada e deixe que o sol filtrado pelas copas das árvores toque o seu rosto. Não, isso não é o início de uma meditação guiada. É o ponto de partida de uma prática criada pelos orientais na década de 1980 e que vem conquistando adeptos no mundo: o banho de floresta – ou o shinrin-yoku, na tradução japonesa.

O foco é combater o estresse por meio de uma conexão imersiva com a natureza para pausar o tempo e “escutar” o corpo sem pressa. No Brasil, a prática é realizada na Floresta da Tijuca (Rio de Janeiro), no Parque Nacional de Brasília, no Ibirapuera (São Paulo) e em muitos outros locais.

Em Portugal, acontece em bosques do Gerês, serras do Alentejo e parques urbanos de Lisboa. “Criamos uma série de atividades que procuram despertar novas situações e experiências sensoriais”, explica Alex Gesse, formador e mentor de guias do European Forest Therapy Institute e fundador do Instituto Português de Banhos de Floresta.

A prática pode durar de trinta minutos a três horas e é conduzida por profissionais formados especificamente para essa finalidade. Segundo ele, as florestas carregam metáforas poderosas, em um sentido poético, sugerindo que simbolizam ou representam ideias, sentimentos e conceitos que ajudam a refletir sobre o momento de vida de cada pessoa. “Estamos falando de lugares com árvores centenárias, com idades de 200 a 300 anos, como as encontradas em Sintra ou na Mata do Bussaco, a primeira floresta terapêutica da Península Ibérica reconhecida pelo Gabinete Internacional de Certificação de Florestas Terapêuticas”, explica o mentor.

A prática pode durar de trinta minutos a três horas. Crédito: Divulgação
A prática pode durar de trinta minutos a três horas. Crédito: Divulgação

“Incentivamos os participantes a seguir o instinto do olfato e a sentir os aromas do ambiente”. Os efeitos positivos do banho de floresta têm respaldo científico. Estudos, sobretudo no Japão, mas também no Brasil, apontam melhorias significativas na saúde física e mental após sessões regulares. Em uma pesquisa clínica randomizada conduzida pela doutora Lis Leão, pesquisadora sênior do Einstein Hospital Israelita, em São Paulo, foram avaliados 173 pacientes oncológicos submetidos à quimioterapia.

Eles assistiram a vídeos com imagens da natureza organizadas em categorias afetivas — como beleza, emoções positivas, tranquilidade e miscelânea. “Os resultados mostraram que a utilização de imagens, principal mente as da categoria beleza, reduziu significativamente sintomas físicos, como dor, cansaço e falta de apetite, além de melhorar o bem-estar emocional, com destaque para a diminuição da ansiedade e a tristeza”, explica Lis, também líder do grupo de pesquisa e-Natureza, que produz estudos interdisciplinares sobre a conexão entre a natureza, saúde e bem-estar.

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) conduz, desde 2021, em parceria com o Instituto Brasileiro de Ecopsicologia, um projeto que busca ampliar o alcance do banho de floresta no Brasil por meio de pesquisas e formação de ecotuners — profissionais capacitados para guiar iniciantes na imersão com a natureza. A intenção é que, no futuro, a prática seja incorporada à lista de terapias integrativas e complementares oferecidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Banho de floresta. Crédito: Divulgação
Banho de floresta: a intenção é que, no futuro, a prática seja incorporada à lista de terapias integrativas. Crédito: Divulgação

“A expectativa é de que toda a produção científica e os relatórios técnicos contribuam com os gestores públicos, especialmente no âmbito do Ministério da Saúde, oferecendo subsídios para avaliar a viabilidade e a relevância dessa inclusão. Trata-se de uma prática de muito baixo custo, pois requer apenas ambientes naturais, profissionais capacitados e uma estrutura mínima”, explica Guilherme Franco Netto, coordenador da Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde (VPA- APS/Fiocruz).

Uma iniciativa semelhante acontece em Portugal. Alex Gesse, que também colabora com cientistas brasileiros do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, comemora o avanço inicial para a inclusão do banho de floresta em programas terapêuticos direcionados a diferentes condições de saúde. O projeto Naturelab, financiado pela Horizon Action Grant, principal programa da União Europeia para Pesquisa e Inovação, tem como objetivo aumentar o reconhecimento dos espaços naturais como promotores de saúde e bem-estar, para que possam ser validados e prescritos por entidades credenciadas. “Nosso objetivo é fazer com que os centros de saúde passem a incluir serviços ligados ao contato com a natureza”, afirma Gesse.

A neurologista brasileira Natasha Consul Sgarioni explica que a prática do banho de floresta atua na regulação do sistema nervoso. “Promove relaxamento, equilíbrio emocional e qualidade do sono. Isso contribui diretamente para a melhora de sintomas como insônia, ansiedade, tensão muscular e fadiga mental”, afirma.

No Brasil, a prática já conta com iniciativas promissoras. “Temos comprovação científica de que o contato com a natureza faz bem, mesmo que de modo indireto”, afirma a doutora Lis. A exposição à natureza tem sido associada à redução do cortisol (o hormônio do estresse), da frequência cardíaca e da pressão arterial, ao fortalecimento do sistema imunológico e à melhoria do humor e da concentração.

Palavra de quem se conecta com o verde

A arquiteta brasileira Joyce Maron descobriu o banho de floresta durante a pandemia. “Passei a praticar com mais frequência, até porque percebi que já estava sofrendo com o excesso de trabalhos no computador e na tela do celular”, lembra. Joyce procura fazer caminhadas regulares em meio à natureza e afirma que a sua mente desacelera. “Sofro com ansiedade de vez em quando, e é excelente para reduzir esse sintoma. O estresse fica lá, nos gramados e nas árvores para transmutar, e eu volto leve para casa. Não é um efeito psicológico. É ciência. Todos deveriam fazer e, se possível, diariamente”, recomenda.

A lituana Lina Skukauske é adepta da prática. Crédito: Arquivo pessoal
A lituana Lina Skukauske é adepta da prática. Crédito: Arquivo pessoal

A lituana Lina Skukauske ratifica a experiência de seu país, ao sul da Europa. “No banho de floresta, você se torna realmente lento e presente no ambiente. A princípio, isso até pode causar certo desconforto para nossa mente, normalmente apressada e hiperativa, mas, quando você entra nesse estado de fluxo, a sensação é maravilhosa”, diz. “Há uma forma mais profunda de vivenciar o mundo. Aprendemos a nos tornarmos conscientes de todos os nossos sentidos. Você começa a parar para cheirar flores pelo caminho ou a perceber a brisa suave na sua pele. Coisas assim tornam a experiência de vida mais rica”, explica.

Esta reportagem foi publicada originalmente na edição impressa da EntreRios, disponível mensalmente em bancas de Portugal. Para ter acesso a conteúdos exclusivos e receber a revista em casa, assine aqui.

renata@revistaentrerios.pt

Renata Telles
renata@revistaentrerios.pt