Agosto, domingão de sol forte, mar azul, areia branca, 40 graus à sombra. Praia lotada, cada palmo disputado como final de Copa do Mundo. Ao longe, um vendedor ambulante surge como miragem no deserto, trazendo a promessa refrescante de uma tigela de açaí ou de uma cerveja estupidamente gelada.
Lá pelas tantas, avista-se uma camisa do Flamengo, mas poderia ser do Corinthians ou até do glorioso Náutico do Recife. No JBL do jovem de boné, ouvem-se samba, funk, sertanejo ou o brega da vez, uma ode à sofrência, do tipo “ela me deixou por outro alguém”, pois, como diria o poeta, um homem sem chifres é um animal indefeso. Copacabana, Ubatuba, Boa Viagem?
Não, não, meu caro e minha cara, estamos em Cascais, também de frente para o Atlântico, só que do outro lado, vizinha de Lisboa. Com o tsunami de brasileiros que fizeram o caminho contrário ao das caravelas, até o mais renitente dos portugueses sabe disso e tem de dar os dois braços a torcer: Cascais não é mais apenas um território de Portugal.
Nos últimos anos, a balnear e charmosa Cascais se tornou um enclave brasileiro em solo lusitano, feito os ingleses em Gibraltar, na Espanha, ou um país dentro do outro, como o Vaticano em Roma. Um território sem muralhas ou fronteiras, mas basta chegar à estação para ter certeza de que, sim, estamos no Brasil.
E não só pelo idioma oficial, o português do Brasil, falado em seus diversos dialetos: o carioca, com o ‘xis no lugar do esse’; o paulistano, cheio de ‘erres’; o gauchês e seus ‘bah’!; o mineirês e os ‘uais’; o baianês dos ‘meu rei’; e até o pernambuquês e o indefectível ‘viiiiixe’.
A ida à praia é um exemplo didático da ocupação tuga. Quando era frequentada apenas por portugueses, o petisco em Cascais resumia-se à Bola de Berlim, um pão redondo e adocicado, recheado com creme que, como o nome indica, faz mais sentido em uma manhã de piquenique em um parque alemão do que em um escaldante dia de sol.
E vamos combinar, Bola de Berlim com cerveja ninguém merece.
Mas a gestão brasileira em Cascais tratou de botar ordem na nova casa, e hoje já é possível contar com um tira-gosto digno: uma coxinha de galinha, um cachorro-quente comeu-morreu e até um legítimo pastel de vento. É outro nível. O próximo passo é escolher o novo hino de Cascais. Até agora, o mais cotado é o clássico Trem das onze, de Adoniran Barbosa, até porque lá tem trem — inclusive às onze — e o português conhece e já sabe cantar. Só precisaria de uma pequena adaptação na letra, que começaria assim: “Cas Cas Cas Cas Cascais, faz ziriguidum, faz ziriguidum, faz ziriguidum”.
De resto, Cascais já é nossa.
Esta crônica foi publicada originalmente na edição impressa da EntreRios, disponível mensalmente em bancas de Portugal. Para ter acesso a conteúdos exclusivos e receber a revista em casa, assine aqui.