Há chefs que começam uma criação escolhendo um ingrediente. Andrea Cardoso parte de uma sensação. “Sempre penso no que gostaria de sentir na boca ao morder as coisas”, explica.
Esse é o guia de todas as invenções da chef brasileira, hoje à frente do Digby, restaurante do hotel Torel Avantgarde, no Porto. Mas, antes de chegar ao prato, há quase sempre uma pessoa. Um sorriso pode virar uma receita e até um amor se transforma em sobremesa: sua noiva, por exemplo, inspirou um doce à base de uvas. Já a mãe remete a algo sagrado. “Tem que ser bacalhau”, diz.
Embora a ligação com a gastronomia tenha começado na infância, entre os ensinamentos da mãe e da avó, Andrea não gosta de olhar apenas para trás quando pensa na cozinha. Natural de Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul, voltou a Portugal no primeiro semestre de 2026, depois de uma trajetória marcada por idas e vindas entre Brasil, Espanha e Reino Unido.
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Ao longo de 15 anos de carreira, absorveu referências de diferentes culturas e técnicas. No Brasil, encontrou a diversidade de sabores e ingredientes; na Espanha e em Londres, aprofundou conhecimentos que hoje utiliza para reinterpretar a cozinha portuguesa sem perder de vista a identidade local.
No trabalho de Andrea, as ideias também não respeitam horários. Há noites em que ela desperta de madrugada porque uma ideia insiste em não esperar pelo amanhecer. “Tenho de anotar. Se não escrever, ela desaparece”.
Da memória à criação
A proposta encontra um cenário natural no Digby, cujo menu cruza inspirações portuguesas e internacionais. Ali, tem liberdade para imprimir uma assinatura própria sem romper com a identidade do local.
“Peguei pratos que já têm uma história e quis contar a minha por meio deles”, diz Andrea.
O processo raramente termina na primeira versão. Andrea testa, ajusta, prova, volta atrás e recomeça quantas vezes forem necessárias até encontrar o sabor que procura. A técnica divide espaço com a intuição e com as memórias que acompanham cada criação.
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Clássicos portugueses com novas leituras
É na carta que essa filosofia deixa de ser discurso. O amuse-bouche, um delicado purê de batata-doce servido com notas cítricas, prepara o paladar para o que vem a seguir. Na degustação, a acidez aparece de forma sutil e volta a surgir ao longo de praticamente toda a refeição, funcionando como um fio condutor entre sabores intensos, mas nunca pesados.
Quem conhece o picapau (9€) dificilmente o reconhecerá de imediato. A carne ganha novos contrastes entre a doçura, a acidez e um toque fumado que prolonga o sabor sem esconder as suas origens. É um prato confortável, mas suficientemente diferente para surpreender logo na primeira garfada.
O mesmo acontece com o xerém (14€). Baseado na textura cremosa da polenta, chega à mesa leve, fresco e marcado pelo sabor das amêijoas. A maçã e os citrinos trazem vivacidade ao conjunto, criando uma combinação delicada e cheia de personalidade.
Entre os principais, o arroz do mar (25€) talvez seja o encontro mais evidente entre Portugal e Brasil. A base inspirada na moqueca envolve arroz, marisco e corvina numa combinação rica e aromática, equilibrada por ervas frescas. A corvina merece destaque: firme, delicada e naturalmente adocicada.
O que melhor sintetiza a cozinha de Andrea, porém, é o carré de cordeiro (29€). A chef parte de um dos clássicos da gastronomia italiana — o cacio e pepe —, mas abre mão justamente do elemento que o tornou conhecido em todo o mundo: a massa. Permanecem apenas os sabores do queijo e da pimenta, reinterpretados com favas para acompanhar o cordeiro. A proposta pode parecer quase uma provocação para os puristas italianos, mas resume bem a filosofia de respeitar a história das preparações sem se sentir obrigada a repeti-las.
Sobremesas entre a tradição e a surpresa
As sobremesas seguem a mesma lógica. O arroz-doce (8€) mantém o conforto da receita tradicional, mas apresenta uma textura mais delicada e cremosa. O três leites (9€) surpreende pelo equilíbrio, já que a doçura encontra contraponto numa redução de vinho tinto e Vinho do Porto, tornando a sobremesa mais elegante do que indulgente. Já o ruibarbo (9€) é, talvez, a opção mais inesperada da carta, com a acidez da fruta em contraste com a suavidade do chocolate branco, encerrando a refeição com frescura em vez de excesso.
É nesse equilíbrio entre técnica e intuição que Andrea constrói a carta do Digby, incorporando referências e levando cada receita à mesa apenas quando acredita que a primeira mordida será capaz de ficar na memória.
Serviço
Digby Restaurante Bar
Endereço: Rua da Restauração, 336, 4050-501 Porto
Contato: 351 222 449 615
Horários:
- Jantar: todos os dias, das 19h30 às 22h30
- Almoço: sábados e domingos, das 12h30 às 15h00
flavio@revistaentrerios.pt