Aos 83 anos e com uma trajetória marcada por canções que atravessam gerações e fronteiras, o angolano Bonga ainda guarda um sonho de gravar com uma estrela brasileira. A revelação foi feita nos bastidores do Coala Festival, em meio a reflexões sobre música, política e os laços culturais entre os países de língua portuguesa. “Seria com o meu querido amigo Gilberto Gil”.
Ao comentar a escolha das músicas para o concerto, realizado neste sábado (30), Bonga destacou a dificuldade de selecionar temas dentro de uma discografia extensa. “Tem que haver a seleção do repertório que nunca mais acaba para escolher aquela que for apropriada em função deste público que se deslocou aqui. E o que vier veio, tá-se bem. Não há problema nenhum, porque a música é boa, é ótima, é maravilhosa, é profunda. É comunicativa, tem ritmo”, afirmou.
No palco, o cantor levou ao público um repertório construído a partir de uma carreira que atravessa várias décadas, marcada por canções de forte conteúdo social e político.
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Bonga continua a associar a sua produção artística às questões que observa no mundo. Ele ainda afirmou que os conflitos e transformações da sociedade seguem presentes na sua inspiração. “Continua agitado. Mas agitado no bom sentido porque tem som, tem melodia. E a minha agitação tem a ver com o que se passa no mundo, efetivamente, porque eu comecei a cantar assim. Música de reivindicação, música de chamamentos vários, de responsabilidades”.
Para o músico, a canção continua a ser uma forma privilegiada de transmitir mensagens e provocar reflexão. “Há muita coisa para se dizer. Muitíssima coisa para se dizer. E quando se diz cantando, é maravilhoso. É mais incrível ainda”.
A presença no Coala também teve um significado especial pela proposta do festival de reunir artistas de diferentes países unidos pela língua portuguesa. Para Bonga, a música continua a ser uma das formas mais autênticas de aproximação entre esses povos.

“É um contributo. É a maior divulgação, é essa família que se encontra, de facto, contrariamente do que acontece com os políticos que fazem de conta. Nós não fazemos de conta, nós estamos de facto. E cantando. Ah, isso é fabuloso”.
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No fim da conversa, o cantor recordou uma curiosidade sobre uma das suas características mais marcantes: a voz rouca que se tornou uma assinatura artística ao longo da carreira. Segundo ele, a decisão de apostar nesse registro vocal surgiu após sugestões recebidas ainda nos anos 1970. “Não fui eu que disse. Disseram-me. Nos anos 70 disseram-me: experimenta e vai ver se dá”. E segue dando certo.
flavio@revistaentrerios.pt
Colaborou Lizzie Nassar