O nome de registro é Ricardo Lemos. Mas pode chamá-lo de Xerife. Com colete de couro, distintivo no peito, sorriso sempre aberto e um olhar que observa antes de servir, é assim que o barman carioca, de 64 anos, ficou conhecido em Lisboa. “Figuraça” é pouco para defini-lo. Meio personagem, meio guardião do balcão, Lemos comanda o QG Bar, que acaba de ganhar uma segunda unidade, inaugurada recentemente na Praça das Flores, em sociedade com a filha, Lívia Lemos.
Não há um cardápio fixo de coquetéis autorais. O que Lemos propõe é um jogo: o Ask Ricardo, em que prepara drinques sob medida. Se o cliente não gostar, não paga. Tudo começa com perguntas sobre a preferência por sabores mais cítricos ou doces e sobre a bebida que servirá de base, como vodca, tequila ou uísque. “Eu faço o drinque da pessoa. Não é um coquetel meu”, explica. Tanto que, no balcão, a brincadeira virou regra: o copo recebe o nome de quem vai bebê-lo. Há clientes que chegam a anotar a receita para que o Xerife a repita em outra visita, porque, como ele mesmo admite, não consegue decorar tudo o que cria.

Lemos aprendeu cedo que o balcão é um lugar de escuta. “O meu maior trabalho é observação. Eu vejo como a pessoa chega, como se senta, como fala. O álcool é uma droga legalizada. E é uma responsabilidade servir”, afirma. “Ele demora cerca de 15 minutos para ‘bater’. Se a pessoa pede três shots em cinco minutos, eu não sirvo o quarto”, esclarece o barman.
LEIA MAIS: Restaurante brasileiro em Lisboa lança cachaça artesanal exclusiva inspirada na Bahia
Essa consciência vem de uma vida atravessada por excessos, pausas necessárias e profundas reinvenções. Nascido no Rio de Janeiro, Lemos se mudou com o pai, professor de linguística portuguesa, para a França aos 6 anos, onde foi alfabetizado. Na adolescência, a família novamente trocou de país, dessa vez para o Senegal, mais precisamente para Dakar. Ali, teve contato com técnicas de estamparia e pintura em tecido. De volta ao Brasil, formou-se em Belas Artes, no Rio de Janeiro, e, mais tarde, seguiu para Paris, onde se especializou em moda e passou a criar pinturas têxteis, em 1990. Foi também nessa época que o universo dos bares entrou em sua vida. Começou a trabalhar na New Morning, uma das casas de jazz mais tradicionais da cidade.
Em outra mudança de rumo, retornou ao Brasil e conheceu o chef Olivier Anquier, que o convidou para trabalhar em Florianópolis. Na capital catarinense, atuou em bares e restaurantes antes de abrir seus próprios estabelecimentos. Mas essa seria apenas a etapa inicial da profissão que abraçaria definitivamente — e que se consolidaria em outro país: os Estados Unidos. Foram quatro anos atrás do balcão, em Nova York, em casas como o Empório Brasil, referência para a comunidade brasileira na cidade. Para trabalhar legalmente, precisou obter certificação. “Aprendi fisiologia do álcool, a lidar com gente alcoolizada, drogada, a dizer não”.
A ideia de se mudar para Portugal surgiu em 2019, por iniciativa da filha, a apresentadora Lívia, que já vivia em Lisboa. Sócia e gestora do negócio, ela fala do pai com emoção e clareza. “Ser filha do Ricardo é a experiência mais linda e louca que eu tenho. A gente plantava o que comia, meu pai era expositor da Feira Hippie de Ipanema. Minha mãe, professora de artes. A gente sempre correu atrás com leveza”.

Para Lívia, muito do que hoje se estuda como autoconhecimento o pai sempre praticou de forma intuitiva. “Pensamento positivo, cocriação, força do pensamento. Meu pai faz isso desde sempre”. E essa herança aparece no atendimento. “O QG é a nossa casa que a gente abre para os amigos. Os clientes viram família”, declara ela.
LEIA TAMBÉM: Jantar imersivo leva à mesa obras de Michelangelo, Picasso e Van Gogh
O bar traduz esse espírito: intimista, com telas produzidas por Lemos, que vive na Costa da Caparica, onde também cria suas peças de cerâmica. No balcão, segue atento, firme e afetuoso. Mantém a ordem, protege o espaço e cuida das pessoas. Foi assim que virou Xerife: não por fantasia, mas pelo reconhecimento de um grupo de clientes que passou a chamá-lo assim.
O recomeço pela arte
Em 2002, depois de quatro anos em Nova York, Ricardo Lemos teve que parar. “Eu usei drogas por 23 anos. Estou limpo há 22”, conta. Diante da piora da dependência química, a solução foi o retorno ao Brasil e o isolamento. “Fui para o meio do mato, em Resende Costa, Minas Gerais. Só ia para a cidade a cavalo”, diz. Nesse período, Lemos se reconstruiu longe dos bares, mergulhou na arte e no artesanato. Formou-se em Artes Aplicadas com ênfase em Cerâmica, fez pós-graduação em Arteterapia, trabalhou por anos com dependentes químicos. “Aprendi sobre a minha doença”, afirma.
Esta reportagem foi publicada originalmente na edição impressa da EntreRios, disponível mensalmente em bancas de Portugal. Para ter acesso a conteúdos exclusivos e receber a revista em casa, assine aqui.
fernanda@revistaentrerios.pt