Estamos na temporada de estômago forte. Basta passar na frente de qualquer tasca e lá está o cartaz pendurado à porta, escrito com o garrancho do garçom: “Há caracóis!”. É a senha nada secreta, os moluscos já estão aí, à espera no prato. Provar um caracol exige técnica, afinal, ele vem à mesa dentro da carapaça. E, para despejar o molusco da casinha só há duas maneiras, e ambas exigem habilidades.
A primeira delas é com a ajuda de um palito de dentes, numa curiosa caça ao caracol escondido. Nessa modalidade semiolímpica, o comensal futuca o interior da casca do molusco até conseguir retirá-lo de lá. Aviso logo, leva tempo e exige paciência oriental.
A segunda é cair de boca, a preferida dos lisboetas. Dar um beijo no bichinho, como a princesa no sapo. Com a desvantagem de o molusco nunca virar um príncipe. E não é um selinho qualquer, mas um chupão de novela, tipo aspirador de pó, até sugar o animal de lá de dentro.
Bom, uma porção tem dezenas de caracóis. E, ao contrário da sopa, quando o barulho não é recomendado, aqui, quanto maior o som durante a extração, melhor. Daí, já viu, a tasca rapidamente se transforma numa sessão coletiva de chupa-chupa ao ar livre.
Apesar da cena libidinosa-gastronômica, avançar num caracol é para o lisboeta a coisa mais natural do mundo. Para nós, brasileiros, requer uma certa disposição. Afinal, no Brasil, o bichinho com jeitão de caramujo está associado a encher a barriga com um parasita e não satisfazer o apetite.
Num esforço de investigação jornalística, resolvi encarar a iguaria. Convoquei uma testemunha, uma amiga brasileira de Lisboa. Ela mal se sentou à mesa e foi logo avisando, “não como esse bicho, é contra a minha religião”. Tiro errado, fazer o quê? O prato chegou fumegante e só me restava comer. Parti para cima dos caracóis e, devo confessar, teve até graça. Tanto que me empolguei.
Lá pelas tantas, um dos caracóis, num movimento de fluxo e refluxo, disparou da minha boca como um míssil até o cabelo da minha amiga. E vamos combinar, levar uma cusparada já é chato, imagine na companhia de um molusco. Ficamos os dois em silêncio. Na hora, até pensei em sacar o velho sucesso do Roberto para quebrar o gelo, aquele dos caracóis no seu cabelo, mas pela cara dela já estava todo enrolado.
Mais enrolado do que um caracol.
Essa crônica foi publicada originalmente na revista EntreRios.
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