Era ainda adolescente, mas ainda me recordo de uma vez que ouvi uma amiga falar sobre um ex-namorado. O relacionamento tinha terminado havia muito tempo e sequer fora particularmente longo ou intenso. Mesmo assim bastava alguém mencionar o nome dele para que ela desabasse em lágrimas. O sofrimento parecia desproporcional à história vivida. Havia ali algo que transcendia a saudade ou a tristeza de um término.
Na altura não tinha um nome para explicar o sentimento dela, mas décadas depois, através da psicóloga norte-americana Dorothy Tennov que cunhou o termo “limerence” e o definiu como um estado cognitivo e emocional involuntário de necessidade de reciprocidade afetiva, idealização da pessoa desejada e medo constante da rejeição, entendi que podíamos falar de uma espécie de amor “patológico”.
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Desde então, a limerência passou a ser reconhecida como uma experiência emocional perturbadora: uma espécie de fascínio obsessivo em que se deseja o amor de alguém mesmo que não seja correspondido. Podemos falar mais em obsessão do que em amor. O termo se popularizou através dos mídia e livros de autoajuda mas apesar de desenvolvido por uma psicóloga não foi considerado pela comunidade profissional como distúrbio ou doença mental.
A química da obsessão
A Limerência é sustentada por mecanismos psicológicos e neuroquímicos que aprisionam a pessoa em um ciclo de expectativa e frustração. A dopamina, neurotransmissor associado ao prazer e à recompensa, desempenha papel central nesse processo. Cada mensagem recebida, cada encontro inesperado ou mínima demonstração de interesse produz uma descarga química que induz ao reforço do vínculo emocional. A ausência desses estímulos, por outro lado, gera ansiedade, insegurança e sofrimento. É uma dinâmica semelhante à observada em comportamentos compulsivos: a mente passa a buscar incessantemente sinais de reciprocidade, enquanto a vida emocional gira em torno do outro. O resultado é um estado de permanente vigilância. A pessoa limerente interpreta gestos mínimos como grandes demonstrações de interesse, atribui significados profundos a interações banais e mantém-se emocionalmente dependente de sinais que confirmem suas esperanças.
Quando a fantasia supera a realidade
Talvez o aspecto mais intrigante da Limerência seja que ela nem sempre depende da pessoa real. Na prática, o que alimenta o sentimento não é necessariamente quem o outro é, mas aquilo que ele representa. O objeto limerente torna-se uma tela sobre a qual são projetados desejos, expectativas e carências acumuladas ao longo da vida. Nesse processo, o indivíduo deixa de se relacionar com uma pessoa concreta e passa a se relacionar com uma versão idealizada dela. A consequência é inevitável: mais cedo ou mais tarde, a realidade entra em conflito com a fantasia. E a dor experimentada nesse momento costuma ser intensa porque não envolve apenas a perda de alguém. Envolve também a perda de uma fantasia construída e de uma esperança cultivada durante meses ou anos.
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A Limerência frequentemente tem origem em questões internas mal resolvidas. Carências afetivas, insegurança, baixa autoestima e padrões emocionais desenvolvidos na infância podem levar mais facilmente a esse tipo de vínculo. Quando a felicidade depende do comportamento de outra pessoa, quando a autoestima oscila conforme a atenção recebida e quando a paz emocional está condicionada à validação externa, estamos diante de um quadro de dependência emocional. A pessoa acredita que encontrará no outro aquilo que, na realidade, precisa construir dentro de si. Por isso, muitos especialistas defendem que a Limerência não é propriamente uma história de amor. É uma história de necessidades e carências antigas. O amor saudável nasce da partilha. A dependência emocional nasce da falta. Enquanto o amor aproxima duas pessoas inteiras, a dependência tenta preencher vazios internos por meio da presença de alguém.
A reconquista da autoestima
Os impactos psicológicos da Limerência podem ser enormes. Ansiedade, pensamentos intrusivos, depressão e sensação de vazio são alguns deles. Mas a recuperação é possível. Devemos compreender que o sofrimento é real, mesmo quando nasce de uma idealização. Minimizar a dor apenas prolonga o ciclo emocional. É importante resgatar gradualmente a própria identidade. Retomar amizades negligenciadas, investir em interesses pessoais, fortalecer a autoestima e recuperar atividades que proporcionem prazer são estratégias fundamentais para restabelecer o equilíbrio. A psicoterapia também pode desempenhar papel decisivo ao ajudar o indivíduo a compreender os mecanismos emocionais que sustentam a dependência afetiva e desenvolver formas mais saudáveis de se relacionar.
Embora para quem a vive a experiência possa parecer avassaladora e incompreensível, ela representa uma manifestação humana profundamente ligada à necessidade de conexão, pertencimento e reconhecimento. Talvez por isso seja tão difícil identificá-la. Afinal, ela se apresenta disfarçada de amor. Mas, ao contrário do amor genuíno, que nutre, fortalece e liberta, a Limerência aprisiona. Alimenta-se da incerteza, prospera na idealização e transforma a busca pelo outro em um afastamento gradual de si mesmo. Desejar alguém nunca deve significar perder a capacidade de existir sem o outro.
susana@revistaentrerios.pt