CHICO SILVA

O português insaciável

A fome de títulos de Abel Ferreira parece não ter fim. Palmeiras briga por títulos em três campeonatos e com chances reais de ganhar todos

Agosto 25, 2026

Abel Ferreira em ação contra o Vasco. Fome de títulos do técnico palmeirense parece não ter fim Crédito: Cesar Greco/Palmeiras
Abel Ferreira em ação contra o Vasco. Fome de títulos do técnico palmeirense parece não ter fim Crédito: Cesar Greco/Palmeiras
Há exatamente uma semana, esta coluna decretou: Habemus Brasileirão. O Palmeiras havia tropeçado contra o Fluminense, o Flamengo goleado o Mirassol e a vantagem que chegara a oito pontos estava reduzida a três. O Brasileirão, que parecia morto, havia ressuscitado. Sete dias depois, Abel Ferreira tratou de nos mostrar que talvez tenhamos nos precipitado.
O Flamengo perdeu para o Cruzeiro e desperdiçou a oportunidade de colar no Palmeiras. No domingo, o time paulista goleou o Vasco por 4 a 1 e abriu novamente seis pontos de vantagem na liderança. É verdade que o Rubro-Negro ainda tem uma partida a menos e depende apenas de si para ser campeão. Mas o Palmeiras voltou a ser, indiscutivelmente, o grande favorito ao título. E não apenas no Brasileiro. O time está classificado para as quartas de final da Libertadores e da Copa do Brasil, sendo favorito nas disputas contra a LDU, do Equador, e o velho rival Santos.
E falar desse Palmeiras significa inevitavelmente falar de Abel Ferreira.
Quando o português desembarcou no Brasil, em novembro de 2020, vindo do PAOK, da Grécia, era praticamente um desconhecido para a maioria dos torcedores brasileiros. Quase seis anos depois, seu nome está definitivamente inscrito entre os maiores da história de um dos clubes mais vitoriosos do país.
Os números impressionam. Abel conquistou 11 títulos pelo Palmeiras: duas Libertadores, dois Campeonatos Brasileiros, uma Copa do Brasil, quatro Paulistas, uma Recopa Sul-Americana e uma Supercopa do Brasil. Em março deste ano, ultrapassou Oswaldo Brandão e se tornou isoladamente o treinador que levantou mais troféus na história palmeirense. É também o técnico mais longevo do clube em uma única passagem e o maior campeão internacional do Verdão.
Mas talvez o que mais impressione em Abel não sejam apenas as taças. Seu espírito competitivo e sua fome por títulos parecem insaciáveis.
Jogadores chegaram e saíram. O elenco foi montado e remontado diversas vezes. Dezenas de treinadores de adversários foram contratados, demitidos, recontratados e novamente demitidos, enquanto Abel ficou. E ganhou.
Ganhou com times mais ofensivos, ganhou sabendo sofrer, ganhou finais, pontos corridos e mata-matas. Perdeu também, obviamente. Foi eliminado, viveu crises e ouviu críticas. Mas invariavelmente conseguiu reconstruir suas equipes e recolocar o Palmeiras no caminho dos títulos.
E mesmo com tanto êxito, Abel não é exatamente uma unanimidade. Reclama demais da arbitragem, provoca adversários, coleciona discussões e muitas vezes transforma a área técnica em um espetáculo particular. Pode ser irritante. Pode ser exagerado. Pode-se até não gostar dele. E há até na torcida do Palmeiras quem não goste. Mas ignorá-lo não é possível.
Existe uma medida bastante objetiva para avaliar um treinador de futebol: sua capacidade de fazer um time vencer. E nisso o português tem sido de uma eficiência impressionante.
Aos 47 anos, Abel já comandou o Palmeiras em mais de 400 partidas e construiu uma trajetória que dificilmente será repetida no futebol brasileiro atual, marcado pela impaciência e pela troca permanente de treinadores. Seu contrato vai até o fim de 2027. E nada indica que sairá antes de cumpri-lo. E, se depender da presidente do clube, Leila Pereira, seu contrato seria vitalício.
Agora, caminha para tentar acrescentar mais títulos à sua coleção. Mesmo que não conquiste a trinca, será muito difícil que não consiga ao menos um. Há uma semana, escrevemos aqui Habemus Brasileirão. Mas, para azar dos rubro-negros, o insaciável português parece ter entendido a frase como provocação.
Chico Silva. Foto: Divulgação