ENTREVISTA

Rock in Rio Lisboa: Roberta Medina discute liderança feminina em um setor dominado por homens

Ela comanda o Rock in Rio Lisboa, que gera impacto de 120 milhões de euros e ajuda a cidade a se consolidar como destino de entretenimento

Abril 15, 2026

Roberta Medina. Crédito: Jordan Alves
Roberta Medina comanda o Rock in Rio Lisboa que este ano acontece dias 20,21,26 e 27 de junho. Crédito: Jordan Alves

A marca Rock in Rio tem 40 anos de criação e 21 do evento em Lisboa. Em Portugal, o festival é comandado pela vice-presidente executiva de produção da Rock World, Roberta Medina, 47 anos. Ela é uma das figuras mais influentes — e discretas — do entretenimento mundial. À frente da expansão internacional da espetacular festa criada em 1985 no Rio de Janeiro por seu pai, Roberto Medina, ela fez do Rock in Rio Lisboa um sucesso desde a estreia, em 2004. A Rock World é responsável também pelo The Town, no Brasil. É da capital portuguesa, onde mora, que Roberta conduz uma das maiores produções musicais do planeta.

“É mais do que um festival, é um movimento de otimismo”, resume.

Ela aprendeu cedo, aos 17 anos, o que seria o motor do evento: “Transformar sonhos em experiências reais”. E, garante, “foi o melhor empurrão” que poderia ter recebido. Dessa escola intensa surgiu uma gestora intuitiva e humana — combinação rara no universo do show business. Casada há 15 anos com Ricardo Acto, executivo da empresa, e mãe de Lua e Théo, ela tem metas profissionais nada modestas. “Queremos que o Rock in Rio Lisboa seja tão relevante para a Europa quanto o do Brasil é para o mundo. Mas, acima de tudo, queremos continuar inspirando pessoas.” Nesta entrevista, Roberta Medina fala sobre liderança e autoridade feminina em ambiente masculino, qualidade de vida, maternidade e o festival que acontece em junho deste ano.

Roberta Medina. Crédito: Divulgação
A carioca Roberta Medina vive com o marido e os filhos em Portugal. Crédito: Divulgação

Como é liderar grandes projetos, como o Rock in Rio? Você acha que por ser mulher o desafio aumenta?

Quando falamos de desafios femininos, é curioso, porque na fase em que eles deveriam existir para mim eu simplesmente não enxergava. Quando comecei, eles estavam lá, claro, mas eu não via. Acho que isso foi uma grande vantagem. Comecei a trabalhar cedo com meu pai no Rock in Rio. Meu irmão foi para a publicidade, e eu, para o festival. Iniciei em produção sem saber direito o que estava fazendo. Um dia, perguntei a ele por que me colocou nisso. Ele só disse: “Ia acontecer mais cedo ou mais tarde. Foi mais cedo”. E eu me apaixonei pela produção de eventos. No Rock in Rio Lisboa, já passei a liderar a produção. E foi aí que a jornada aconteceu de forma mais potente.

Lembro de uma reunião em Madri com engenheiros em que eu fazia perguntas e o homem respondia olhando para o meu diretor. Quando percebi, pensei: ‘Agora não me calo até ele olhar na minha cara’. E foi até divertido. Eu gosto de buscar o lado bom das pessoas. Agora, se for mau-caráter, aí não tenho paciência alguma”.

Foi difícil conquistar respeito e autoridade em um ambiente majoritariamente masculino?

Meu pai me empoderou muito. Me deixou errar e resolver. Isso me deu autoridade e respeito. Sempre digo que tive a vantagem da “santa ignorância”. Eu não sabia que havia tantos desafios. Claro que percebia algumas gracinhas masculinas, mas nunca me ofendi. Em Portugal, por exemplo, havia uma formalidade enorme — “senhor”, “doutor”, “comandante” — e eu troquei tudo. Comecei a chamar todo mundo pelo nome. Aproveitei a “licença poética” de ser brasileira e usei isso ao meu favor. O projeto chegou aqui muito bem colocado socialmente, com grandes patrocinadores, o que gerava respeito. Se eu fosse só uma brasileira sem esse respaldo, seria bem mais difícil. Usei a minha leveza, a minha energia, e fui construindo relações.

Roberta Medina. Crédito: Renata Telles
Roberta Medina durante o evento de lançamento do Rock in Rio Lisboa 2026. Crédito: Renata Telles

Não sentiu o preconceito?

Não tive tempo. Comecei a olhar para isso só quando a conversa sobre liderança feminina virou pauta, nos últimos anos. O segredo é não comprar o preconceito. Ele vem do outro, mas, se você o traz para dentro, muda tudo, o comportamento, a postura, o jeito de reagir. Eu nunca comprei. Mas, claro, há situações emblemáticas. Lembro de uma reunião em Madri com engenheiros em que eu fazia perguntas, e o homem respondia olhando para o meu diretor. Quando percebi, pensei: “Agora não me calo até ele olhar na minha cara”. E foi até divertido. Eu gosto de buscar o lado bom das pessoas. Agora, se for mau-caráter, aí não tenho paciência alguma.

Esse crescimento do público estrangeiro é desafio para a estrutura de hospedagem em Lisboa?

Não. O debate maior é sobre moradia e os aluguéis de curta duração na vida dos portugueses. A questão é de organização. Quando o festival foi planejado, já escolhemos períodos fora da alta temporada.

Então, isso nunca foi um problema. O desafio é outro: aprender a dialogar com o ecossistema do turismo. Estamos nos conectando com grupos de viagem, incluindo corporativos, agências que tragam o público certo. É um trabalho de construção de parcerias. O mercado europeu é competitivo, mas cheio de oportunidades. Há espaço para todos os que buscam propósito e qualidade.

Há algum artista que você sonha em trazer?

Ih, não falo mais nada disso! (risos). Sempre gera especulações. Então, aprendi a ficar quieta.

O que toca no seu Spotify?

Bruno Mars, Imagine Dragons, Macklemore, Maroon 5, Michael Jackson, samba de raiz… ultimamente até Menos é Mais, que adoro. Depende do dia: Linkin Park se forpara correr, mantras para relaxar. A música é trilha sonora da minha vida, não é minha especialidade. Não sou especialista em bookings e confio na equipe. Eles entendem o que o público quer ver nos festivais.

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Sua rotina inclui cuidados com bem-estar?

Inclui, e muito. Tive crise de pânico em 2019, tomei remédio por um tempo, mas não gostei e procurei sair disso com ferramentas próprias. Hoje faço exercício regularmente — coisa que nunca consegui antes. Descobri o impacto do treino na mente. É transformador. Tenho personal trainer, regulei o sono, durmo mais cedo, por volta das dez da noite. Não radicalizo na alimentação: como bem, quase não bebo álcool, mas adoro refrigerante sou culpada confessa! E busco mais lazer. Família é prioridade. Eu e o Ricardo temos uma relação sólida e leve, dois filhos, Lua, de 13 anos, nascida no Brasil, e Théo, de 9 anos, nascido em Portugal. Mas também quero tempo para dar risada com os amigos, falar bobagem, relaxar. Tudo isso é saúde.

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Lisboa é o seu lugar no mundo?

Essa cidade me conquistou por identificação. Foi a primeira vez que senti que uma cidade era “à minha medida”. Tudo aqui é mais leve: menos complexo, menos competitivo, menos ambicioso e mais vida. O ritmo, o tempo das pessoas, a simplicidade. Isso me dá paz. Portugal me trouxe alívio, inclusive emocional: ver uma sociedade com menos desigualdade, onde o mínimo está garantido, me tranquiliza. Claro, o mercado é duro, mas muita gente está escolhendo qualidade de vida em vez de poder de consumo. No Brasil, às vezes se ganha mais para gastar mais. Aqui, você vive com menos, mas vive melhor.

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