CHICO SILVA

Soy loco por ti, América

As Oitavas da Libertadores e Sul-Americana começam nesta semana, com 12 brasileiros na disputa e um domínio continental que já dura anos

Agosto 12, 2026

Ao vencer o Palmeiras, Flamengo se tornou primeiro time brasileiro a conquistar quatro títulos na Libertadores (Foto: Divulgação / Fifa)

Nesta semana, começam as oitavas de final da Libertadores e da Copa Sul-
Americana. E basta olhar para a lista de times classificados para perceber
como o equilíbrio de forças do continente mudou definitivamente. Dos 32
clubes que seguem nas duas competições, 12 são brasileiros. A Argentina,
que durante décadas dividiu com o Brasil o comando do futebol
continental, aparece bem atrás, com apenas seis representantes nas duas
competições.

Na Libertadores, são seis brasileiros: Flamengo, Corinthians, o emergente
Mirassol, Palmeiras, Cruzeiro e Fluminense. A Argentina vem em segundo
lugar, com três times: Estudiantes de La Plata, Rosário Central e Platense.
Na Sul-Americana, outros seis brazucas estão na briga: Atlético-MG,
Botafogo, São Paulo, Red Bull Bragantino, Vasco e Santos. Os argentinos
têm apenas três: os gigantes Boca Juniors e River Plate, quase dois
estranhos na Sula, pois quase sempre estão na Libertadores, e o Tigre. Ou
seja, quase 40% de todos os clubes que entram em campo nas oitavas dos
dois torneios são brasileiros.

Mas os números desta temporada são apenas mais um capítulo de uma
história que vem se repetindo nos últimos anos.

Desde que o River derrotou o Boca na histórica final de 2018 da
Libertadores, disputada ironicamente em Madrid por conta da violência dos
torcedores barra bravas dos dois times, nenhum clube de fora do Brasil
levantou o caneco. Flamengo em 2019, Palmeiras em 2020 e 2021,
Flamengo novamente em 2022, Fluminense em 2023, Botafogo em 2024 e
mais uma vez Flamengo em 2025, completando sete títulos consecutivos.

A hegemonia foi tamanha que até clubes que jamais haviam conquistado a
América aproveitaram a era brasileira para entrar no seleto grupo dos
campeões. Em 2023 e 2024, Fluminense e Botafogo levantaram suas
primeiras taças na mais importante competição de clubes do continente. E,
em quatro dessas sete edições, a final foi exclusivamente brasileira.

A Libertadores ainda se chama Libertadores da América. Mas há algum
tempo poderia perfeitamente ser chamada de Libertadores do Brasil com
convidados estrangeiros.

Na Sul-Americana, a supremacia em títulos ainda não chegou ao mesmo
nível. Argentinos e equatorianos, entre outros, continuam oferecendo
resistência. Mas a presença de seis brasileiros entre os 16 sobreviventes
mostra que a força do país só ainda não foi traduzida em títulos. Foram
cinco conquistas na história do torneio, que com esse nome e formato teve
sua primeira edição em 2002. O último título brasileiro foi do Athletico-
PR, em 2021, conquistado em uma final contra o compatriota Red Bull
Bragantino.

O motivo da supremacia passa inevitavelmente pelo dinheiro. Apesar do
calendário bagunçado e da organização e profissionalismo muito distantes
dos padrões europeus, os times brasileiros arrecadam mais, contratam
alguns dos melhores jogadores dos países vizinhos, repatriam atletas que
estavam na Europa e conseguem montar elencos que seus rivais
continentais têm cada vez mais dificuldade de acompanhar. A diferença
econômica virou abismo dentro de campo.

Durante décadas, os brasileiros viajavam para Buenos Aires, Montevidéu,
Medellín ou Assunção sabendo que sobreviver já era parte do desafio. Hoje
são argentinos, uruguaios, paraguaios, colombianos e cia que olham para os
brasileiros como os adversários a serem evitados. Durante muito tempo,
conquistar a América foi uma obsessão distante dos brasileiros. Hoje, o
Brasil finalmente aprendeu a amar a Libertadores. E a dominá-la.

Chico Silva. Foto: Divulgação