Quem anda por Portugal facilmente percebe que o país ‘está em obras’ — literalmente. Seja de infraestrutura, de construção de novos prédios ou reforma de imóveis, a construção civil está aquecida. É aí que entra a importância da mão de obra, e boa parte dela vem de trabalhadores imigrantes.
A Associação Portuguesa de Promotores e Investidores Imobiliários (APPII) calcula que faltam de 80 mil a 100 mil trabalhadores no setor.
A estimativa de crescimento do ano passado é de 4%, segundo a Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas (AICCOPN). Mas a nova política do país, que desde 2025 impõe restrições à chegada de imigrantes, tem impactado a contratação de mão de obra, e os reflexos também são sentidos pelos empresários.

Construção civil em Vila Nova de Gaia. Crédito: Estela Silva/Lusa
Mauro Hoshino é sócio da Melom Tatsu, empresa de construção que cresce acima de 30% ao ano e criou, em 2024, um ‘braço’ do negócio focado em carpintaria, a Dinâmica Memorável.
Ele explica que os contratados são imigrantes, sendo brasileiros a maioria, seguidos por angolanos. O empresário aponta a dificuldade de mão de obra como o principal gargalo do setor e diz que, no último ano, a dificuldade se agravou.
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“Há pessoas que já estão comigo desde o início da empresa, há cinco anos, e que ajudei a formar. Com a suspensão do visto de procura de trabalho, trabalhadores deixaram de vir para Portugal”, explica.
Hoshino se refere à aprovação da Lei dos Estrangeiros, em julho último, que extinguiu a possibilidade de visto para procura de trabalho por seis meses, ao qual os brasileiros tinham direito mesmo sem ter, ainda, um contrato.
O empresário assegura que todas as contratações são feitas de forma legalizada e com pessoas que já vivem em Portugal. “Sempre procuramos quem esteja com tudo regularizado. Quando havia o visto de procura de trabalho, contratávamos nessa modalidade também”.
Com 330 funcionários efetivos, Roberto Fonseca, proprietário da Fonsat Construções, há oito anos no mercado, conta que a empresa possui, hoje, mais de 100 obras em andamento.
“Precisaria contratar mais 100 trabalhadores e, assim, dobrar o tamanho da empresa”, calcula. Toda a equipe é formada por imigrantes, majoritariamente brasileiros, além de colombianos, equatorianos, peruanos e marroquinos.
Segundo o empresário, as novas regras de imigração possuem um lado positivo. “Algumas obras aceitavam os documentos como legais, e outras não. Com a documentação acertada, o funcionário já chega apto a trabalhar na semana seguinte”, garante.
Porém, há um lado negativo: as restrições trouxeram problemas para as empresas por conta da falta de capacidade de atender aos processos.

Roberto Fonseca, CEO da Fronsat Construções, destacou a importância dos imigrantes para a construção civil em Portugal. Crédito: Divulgação
“Houve uma explosão de demanda, e os órgãos públicos não estavam preparados para atendê-la. Tenho uma lista de 50 funcionários que estão no processo de regularização há vários meses“, destaca. Caso não haja uma mudança, o empresário prevê que isso acabe prejudicando o crescimento do país.
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O brasileiro Eduardo Oliveira, montador de pladur (gesso acartonado) em Portugal há sete anos, afirma que vê muitos conterrâneos celebrando contratos de trabalho em vez de realizar trabalhos pontuais que são pagos diariamente. Ele explica o que tem observado com os novos trabalhadores.
“O pessoal que chega e não tem NIF e NISS não consegue mais fazer um contrato. Um colega está há seis meses sem conseguir tirar os documentos. Eles têm tido dificuldade para se regularizar e estão precisando contratar advogado”, relata.
Oliveira acredita que a situação pode se tornar um empecilho para outros imigrantes. Apesar disso, segundo a percepção dele, não há diminuição da chegada de imigrantes para trabalhar.
Empresa oferece ajuda nas questões de imigração
A Fonsat Construções tem investido em um departamento administrativo especializado para orientar os trabalhadores imigrantes com as questões relacionadas à regularização.

A mão de obra da Fronsat é composta majoritariamente por imigrantes. Crédito: Divulgação
“Asseguramos toda a parte do vínculo laboral, incluindo contrato de trabalho, envio das nóminas (folhas de pagamento) em dia e emissão de documentos de suporte, como declaração de alojamento e carta patronal, que muitas vezes são necessários nos processos administrativos”, detalha a chefe de Recursos Humanos da empresa, Alline Damato.
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A empresa possui estruturas com alojamentos, alimentação, transporte e ferramentas para que os trabalhadores possam exercer suas atividades. “Ele consegue viver muito melhor do que muitos informais que estão em alojamentos superlotados”, diz o CEO Roberto Fonseca.
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