Esporte

Santos e Vasco: dois ex-gigantes em atividade

Enquanto Flamengo e Palmeiras disputam títulos, os ex-grandes transformaram a luta contra o rebaixamento em rotina

Maio 26, 2026

Após derrotas, Renato Gaúcho está pressionado no Vasco. Crédito: Dikran Sahagian/Vasco
Após derrotas, Renato Gaúcho está pressionado no Vasco. Crédito: Dikran Sahagian/Vasco
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Todo ano parece haver um acordo silencioso no futebol brasileiro. Flamengo e Palmeiras começam a temporada discutindo quais títulos podem ganhar. Santos e Vasco entram nos campeonatos pensando em como se manter vivos neles. Rubro-negros e alviverdes olham para o G-4 como destino natural. Alvinegros e cruz-maltinos veem o Z-4 como ameaça permanente.

A rodada do fim de semana apenas atualizou um roteiro que vem sendo escrito há anos. Em Porto Alegre, o Santos chegou a ficar na frente do placar, mas tomou a virada do Grêmio e perdeu por 3 a 2. No Rio, o Vasco conseguiu ser ainda mais melancólico: poupou titulares no meio da semana para o jogo da Copa Sul-Americana e foi atropelado por 3 a 0 pelo Red Bull Bragantino em São Januário, com direito a vaias e copos arremessados em direção ao técnico Renato Gaúcho.

Tudo indica que os dois terão um fim de Brasileiro parecido com o de 2023. Naquele ano, chegaram à última rodada em disputa direta para saber quem não cairia. Com um gol salvador de Vegetti contra esse mesmo Red Bull Bragantino que o atropelou agora, o Vasco venceu por 2 a 1 em São Januário e se salvou. Com o resultado no Rio e a derrota em casa para o Fortaleza, o Santos sacramentou o primeiro rebaixamento de sua gloriosa história. O Vasco se livrou daquele que seria o seu quinto descenso. O time carioca é o recordista em quedas entre as 12 maiores equipes do país.

E não estamos falando de clubes médios que perderam uma chance de crescer. Estamos falando de dois gigantes que ajudaram a definir o que era grandeza no futebol sul-americano. De um lado, Pelé, Coutinho, Zito, Pepe e Neymar. Do outro, Ademir, Roberto Dinamite, Romário, Edmundo e Juninho. Com eles em campo, ganharam Mundiais, Libertadores, Brasileiros, títulos continentais, formaram gerações históricas e acostumaram suas torcidas a discutir taças — não permanência.

Hoje, para desespero de mais de 20 milhões de torcedores, parecem dois ex-grandes em atividade.

E o mais duro é perceber que não se trata mais de uma fase, mas de uma transição para a mediocridade. Nem a chegada de SAFs e ídolos parece capaz de impedir esse destino.

No Vasco, a SAF apareceu como promessa de redenção. A entrada da americana 777 foi vendida como o início de uma era de gestão profissional, capacidade de investimento e retorno ao topo. Mas nada disso se concretizou. A parceria fracassou e o clube voltou ao cenário de antes, com falta de receitas, instabilidade financeira e a necessidade de queimar jovens promessas para tentar manter as contas em dia, caso da venda do atacante Rayan ao futebol inglês.

No Santos, o símbolo da esperança tinha nome e sobrenome: Neymar. O retorno do maior ídolo pós-Pelé parecia capaz de recolocar o clube no centro do futebol brasileiro. Mas nostalgia não monta elenco, não organiza departamento e não resolve incompetência administrativa. Entre problemas físicos e um time incapaz de acompanhá-lo, o reencontro produziu mais frustração do que renascimento.

Há um número que resume os dois projetos: desde 2020, Santos e Vasco tiveram mais de uma dezena de treinadores cada um. O Santos virou porta giratória. O Vasco seguiu o mesmo caminho. Ambos trocam técnicos como quem troca de senha, sempre com a promessa de que agora vai. Não vai. Não tem como ir.

Enquanto os rivais aprenderam a transformar grandeza em método, Santos e Vasco passaram a administrar decadência. Ainda vestem camisas gigantes. Mas, de grande mesmo, só sobraram elas.