Turismo

Startup brasileira de afroturismo abre nova sede em Portugal e busca captar US$ 3 milhões

Empresa brasileira tem enxergado Portugal como um destino estratégico para o desenvolvimento do afroturismo

Abril 12, 2026

André Ribeiro, Antonio Pita e Carlos Humberto, fundadores da Diaspora.Black. Crédito: Divulgação

A startup brasileira Diáspora Black, focada em desenvolver destinos de afroturismo, deve abrir em maio sua nova sede internacional, nos Açores, em Portugal, como parte da ampliação da atuação da empresa fora do Brasil.

Para o CEO e fundador da empresa, Carlos Humberto da Silva Filho, o país é estratégico para o desenvolvimento desse mercado.

“Portugal tem tido dos destinos que mais tem apresentado mais oportunidades para desenvolver esse mercado, com mais possibilidades de investimentos, por ter uma abertura ao turismo, e por ter uma construção muito efetiva de populações africanas que passaram por lá”, afirma ele.

Segundo ele, o país possui uma posição estratégica, servindo como conexão com o Brasil, na América, e com os países africanos de língua portuguesa. Além disso, ele acredita que os Açores também oferecem grandes possibilidades de expansão e incentivos a novas empresas.

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“Os Açores têm buscado se consolidar como um dos destinos inovadores do mundo. Existem muitos fundos para desenvolver ecossistemas de inovação por parte da União Europeia e também dos Estados Unidos. Os americanos possuem uma base militar por lá e como contrapartida possuem fundos para desenvolver empresas alocadas por lá”, destaca.

A empresa hoje já atua internacionalmente ao vender pacotes e experiências turísticas por meio de sua plataforma em mais de 40 países do mundo, além de realizar consultorias com prefeituras e governos locais para desenvolver destinos de afroturismo.

Desde a sua fundação, em 2017, no Rio de Janeiro, a empresa já recebia contatos de cidadãos estrangeiros dispostos a adquirir os produtos e experiências da empresa, o que, Carlos define como uma “internacionalização orgânica”.

“Mas a gente não tinha uma estratégia de internacionalização, focada em outros países, porque ainda estávamos em um momento de desenvolver uma nova tecnologia. Agora em 2025, a gente chegou à internacionalização de maneira estratégica, desenvolvendo objetivos, métodos, fazendo o acompanhamento de resultados”, relata.

Para impulsionar esse crescimento, a empresa também está buscando um aporte de 3 milhões de dólares, como parte de uma rodada de série A (primeira rodada significativa de capital de risco para startups que já validaram o seu modelo de negócio). Em 2019, a startup já havia captado R$600 mil por meio de uma rodada seed (primeira etapa de capital institucional na jornada de uma startup) com a Vox Capital.

“Queremos potencializar a tração da empresa e para que a gente consiga a maior velocidade, alcance e diversificação de produto. O aporte será necessário para fazer investimentos em tecnologia e marketing que vão nos permitir seguir crescendo”, ressalta.

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A startup possui o apoio de uma empresa em Lisboa especializada em fundos de venture capital que vão colaborar na busca por investidores. Carlos explica que a empresa não busca apenas por aportes em Portugal, mas que também olha para os Estados Unidos, Caribe e para o Brasil, locais onde o afroturismo já é mais desenvolvido.

“São investidores mais tradicionais que já apoiam nossa agenda e que já caminham há mais tempo nesse mercado de experiência”, reforça.

O CEO da Diáspora Black conta que sua relação com Portugal começou desde as primeiras compras realizadas por portugueses na plataforma. O olhar estratégico para o país começou, porém, após a participação no Web Summit, em 2023, quando a empresa se apresentou no estande da Apex e da Embratur e despertou a curiosidade dos europeus.

Ele conta que também despertou a sua curiosidade descobrir a origem de nomes de ruas de Lisboa como Poço dos Negros e Rua das Pretas.

“A minha chegada em Lisboa foi marcada por identificar ali o potencial de histórias que não estavam apresentadas no mercado de turismo. Poucas pessoas souberam me dizer o porquê daqueles nomes. Encontrei pessoas que souberam me explicar e foi uma revelação muito importante porque, a partir disso, eu fui identificando mais e mais espaços em Lisboa que tinham esse potencial”, conta ele.

Em uma segunda ida a Portugal, ele também recebeu uma premiação para empresas do mercado de turismo e entendeu que havia a receptividade para esse mercado, iniciando conversas com gestores públicos, privados e profissionais do segmento.

No ano passado, a startup também promoveu um encontro sobre afroturismo em parceria com a Apex e a Embratur para impulsionar esse mercado. “Era para a gente receber 25 representantes desses setores e compareceram mais de 100 profissionais. Essa foi a constatação do que existe um mercado a ser trabalhado em Portugal”, celebrou.

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Outro momento marcante, segundo ele, foi o de viver uma experiência com os habitantes da Cova da Moura, bairro da cidade da Amadora visto por ser uma região “perigosa”.

“A partir desse encontro, a gente começou a dialogar com gestores públicos enxergou que tem esse espaço de conectar várias pessoas e histórias com essa, de promover essa mudança e desmistificar esse olhar estigmatizado para essa população, além de gerar renda para essas comunidades e de trazer essa memória que foi camuflada e apagada. São muitos patrimônios materiais e imateriais dessa população que precisam ser apresentados”, frisa.

Hoje, a Diáspora Black também está promovendo um trabalho com a Câmara Municipal de Lisboa para o desenvolvimento do afroturismo na cidade. Ele explica que representantes do turismo no país não querem falar sobre a perspectiva do racismo e do preconceito, além de evitar uma visão histórica crítica que envolva o passado e a escravidão.

Segundo Carlos, o assunto é visto como uma oportunidade pelo seu potencial econômico. “Eles estão enxergando que há uma oportunidade de elevar receitas, aumentar o número de turistas. É um olhar econômico, de mercado. Essa é a janela de oportunidades, mas a gente sabe que o afroturismo vai muito além disso”, analisa.

Para ele, ainda que não haja uma consciência sobre a questão racial nesse momento, o fato de existir a possibilidade para explorar o tema já representa uma ótima oportunidade para tratar do assunto.

“O turismo é um dos mercados mais estratégicos no mundo, porque quando você conhece um lugar, essa experiência jamais sai de você. Não precisa ninguém te dizer nada, você viveu aquilo. Quando você prova uma comida, quando você conta uma história, quando você sente um cheiro, isso fica em você. O turismo é uma das formas mais pedagógicas de você trabalhar uma série de temas, de histórias e de memórias que não foram trabalhadas”, finaliza ele.

renan@revistaentrerios.pt