No fundo do mar, longe da garrafas de vinho repousam presas a redes, embaladas pela corrente e pela temperatura constante do oceano. É ali, entre oito e 40 metros de profundidade, que nasce o chamado vinho do mar, resultado de um método de envelhecimento subaquático que tem despertado curiosidade, pesquisa e novos modelos de negócio em Portugal.
Um dos responsáveis por movimentar esse mercado é Joaquim Parrinha, engenheiro agrônomo de formação e mergulhador há mais de 20 anos. A relação dele com o oceano antecede o vinho, mas foi justamente a soma dessas duas áreas que deu origem à Adega do Mar. “A ideia foi esboçada durante uma formação em animação turística, no ano de 2004”, conta à EntreRios. A concretização, no entanto, só viria quase uma década depois.
Em 2013, Parrinha decidiu submergir algumas garrafas de vinho no litoral de Sines (Alentejo), para oferecer aos comandantes de navios de regata que atracavam na região. O gesto tinha caráter experimental. Dois anos depois, ao colocar garrafas de um produtor local no fundo do mar e acompanhar a sua evolução, percebeu que o processo funcionava. O vinho mantinha-se estável e apresentava alterações sensoriais que chamaram atenção.
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A experiência revelou ainda outro aspecto inesperado. “Conseguíamos uma caracterização única de cada garrafa, cada objeto se tornava uma obra natural”, diz Parrinha referindo-se aos elementos da vida marinha que se fixa no vidro durante o período submerso. O potencial de diferenciação, aliado ao desejo de manter uma atividade ligada ao mar durante todo o ano, levou à criação da Adega do Mar, inaugurada oficialmente em 2021.

Joaquim Parrinha. Crédito: Divulgação Adega do Mar
Hoje, a empresa opera em quatro localizações ao largo de Sines, incluindo a Ilha do Pessegueiro, em Porto Covo. As garrafas são colocadas em caixas abertas, presas por redes, o que garante estabilidade e maior contato com o ambiente marinho. A ausência de luz, a pressão constante, a temperatura estável e o movimento da água influenciam diretamente a evolução do líquido criando diferenças em relação ao estágio em adega convencional.
A Adega do Mar reúne atualmente 26 produtores de várias regiões do país, do Douro ao Algarve, entre eles estão nomes como Black Pig, Vila das Rainhas, José Maria da Fonseca (com o popular Periquita) e Herdade do Cebolal. Além de vinhos e espumantes, passam pelo estágio subaquático produtos como ginja de Óbidos, rum, azeite e mel. Cada bebida segue um acompanhamento próprio. “De um modo geral, os estágios podem ir até dois anos, estando dependentes dos produtores ou dos enólogos”, explica.
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Amostras são recolhidas a cada três meses para avaliar a evolução. A profundidade varia conforme o tipo de produto e o objetivo do produtor. Vinhos tintos costumam permanecer a cerca de 15 metros, enquanto espumantes e destilados podem ser colocados a mais de 30 metros. “Assim que a casta determinada atinge a qualidade pretendida, o vinho pode ser retirado”, afirma.

Vinho do mar. Crédito: Divulgação Adega do Mar
Entre os parâmetros avaliados estão frescor, taninos, acidez, cor, aromas e paladar. O envelhecimento subaquático integra ainda experiências de enoturismo. A Adega do Mar oferece atividades que incluem viagem de barco, formação básica de mergulho, descida até a adega submersa, resgate de uma garrafa e prova a bordo. “Elas acontecem ao longo do ano, sempre condicionadas ao estado do mar”, explica Parrinha.
O valor é de 150 euros para iniciantes e 100 euros para mergulhadores certificados. Com capacidade para armazenar até 100 mil garrafas submersas e cerca de 40 mil atualmente em estágio, a empresa segue em expansão. Os próximos passos incluem a criação de um espaço para um milhão de garrafas, integrando enoturismo subaquático, investigação científica e projetos ligados à preservação marinha. “Com esses números, podemos adicionar a componente ecológica e criar um banco de biodiversidade para recuperar zonas marinhas afetadas”, afirma.
Descoberta casual
A prática de envelhecer bebidas no fundo do mar não é exclusiva de Portugal e ganhou visibilidade internacional após a descoberta de garrafas de champanhe em um naufrágio no mar Báltico, em 2010. Desde então, projetos semelhantes surgiram em vários países, ampliando o interesse científico e comercial pelo método.
Onde beber
Quer experimentar vinhos envelhecidos no mar? Em Sines, eles chegam à mesa em restaurantes como Alma Nómada, com pataniscas de polvo, tacos e risotos, Volta do Mar, com croquetes de javali e bochecha de porco, e Lamelas, com vista para a baía e destaque no Guia Michelin, servindo cozido do mar e entrecosto de porco alentejano com amêijoas. Uma forma única de provar o mar no Alentejo
renata@revistaentrerios.pt