Todos os anos, em agosto, as ruas de São Luís, no concelho de Odemira, ganham uma nova paisagem. As montras — vitrines de lojas que permaneceram fechadas após o declínio do comércio local — deixam de refletir o abandono para acolher obras, instalações, performances e música. Durante dois dias, a aldeia se torna uma grande galeria de arte a céu aberto.
O que começou, em 2015, como uma iniciativa modesta se tornou um dos eventos culturais mais singulares do Alentejo, reunindo artistas, moradores e visitantes em um percurso que atravessa o local e revela, a cada esquina, novas expressões artísticas.
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Como surgiu o Festival Montras em São Luís
A origem do festival está ligada ao movimento de transição que ganhou força em São Luís em 2012. A partir de encontros comunitários e debates sobre sustentabilidade, um grupo de moradores passou a imaginar novas formas de revitalizar a comunidade. Entre eles estava Filomena Patrício, uma das primeiras integrantes do grupo que deu origem ao Montras.
“A ideia inicial era apenas utilizar as montras das lojas fechadas para expor obras dos criadores que já viviam na aldeia. Mas depois surgiram músicos, outras pessoas que quiseram participar. Acabou por nascer uma festa que surpreendeu toda a gente”, recorda.
Filomena nasceu em Odemira, mas cresceu em São Luís, onde sua família vive há várias gerações. Na infância, lembra-se de um povoado movimentado, com comércio ativo e ruas cheias de crianças. Décadas depois, voltou e encontrou um cenário bem diferente.

“Passeava por estas ruas e era uma tristeza ver tantas casas vazias. Hoje recuperou muito. Ver no que se transformou dá-me uma enorme alegria.”
O primeiro Festival Montras superou todas as expectativas da organização. Filomena recorda o momento da inauguração, quando os participantes percorrem as ruas retirando os papéis que escondem as obras expostas nas vitrines.
“Quando cheguei ao meio da rua, olhei para trás e vi um mar de gente. Pensei: ‘Mas o que é isto?’. Não estávamos à espera de tanta gente.”
Desde o início, a organização optou por preservar a independência do projeto. Em vez de recorrer a financiamentos institucionais, os primeiros organizadores promoveram rifas, feiras, caminhadas e eventos comunitários para arrecadar recursos. Atualmente, uma nova geração de voluntários mantém o festival vivo, combinando campanhas de financiamento coletivo com o apoio do comércio local.
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Arte transforma vitrines e renova a identidade
A aldeia atrai pessoas de diferentes países, muitos deles artistas, músicos e criadores. “Quem vem encontra um lugar multicultural, com intervenções artísticas espalhada pelas ruas, seja ela fixa ou em movimento, música. É mágico”, afirma Filomena.
São Luís reafirma uma vocação improvável: transformar vitrines esquecidas em janelas para a arte e fazer da cultura um motor de renovação comunitária.