LUXO URBANO

Hotel em Lisboa oferece uma viagem entre o século XIX e a arquitetura contemporânea

Instalado próximo ao Cais do Sodré, empreendimento reúne duas arquiteturas em um mesmo projeto e reflete a tendência de recuperar edifícios históricos

Julho 30, 2026

No Cais do Sodré, um projeto de reabilitação urbana une duas arquiteturas de épocas diferentes em um único empreendimento hoteleiro. Crédito: Divulgação

A transformação de antigos edifícios em hotéis tornou-se uma das marcas da renovação urbana de Lisboa nos últimos anos. Em bairros como Chiado, Alfama, Príncipe Real e Cais do Sodré, imóveis históricos recebem novos usos, preservando parte de suas características arquitetônicas, ao mesmo tempo em que são adaptados às demandas da hotelaria.

Um bom exemplo dessa tendência é o DUO Hotel Lisbon, inaugurado em 2024, próximo ao Mercado da Ribeira. Em vez de concentrar toda a hospedagem em um único edifício, o projeto foi concebido a partir da união de duas construções de épocas diferentes: uma contemporânea, erguida especificamente para o hotel, e outra instalada em um imóvel do século XIX que passou por um processo de reabilitação.

A divisão não é apenas estrutural. Cada edifício possui identidade própria, desde a decoração até a configuração dos quartos. O hóspede pode escolher, já no momento da reserva, em qual ambiente prefere se instalar: na ala contemporânea ou no prédio histórico.

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Segundo Inês Teles, PR & Marketing Executive do hotel, a intenção foi preservar as diferenças entre os dois edifícios, em vez de uniformizá-los. Isso rendeu, pouco mais de um ano após a inauguração, o selo Travelers’ Choice ao estabelecimento, concedido pelo Tripadvisor aos locais que figuram entre os mais bem avaliados da plataforma com base nas avaliações dos hóspedes.

Um edifício restaurado sem apagar as marcas do tempo

No prédio histórico, a intervenção conservou parte dos elementos existentes antes da adaptação para uso hoteleiro. Um dos exemplos são os corredores, revestidos por painéis de azulejos. Mas nem todas as peças originais puderam ser preservadas. Novas foram produzidas com o mesmo desenho das antigas, permitindo que a composição permanecesse contínua.

A preservação também aparece em detalhes da arquitetura interna, como tetos e elementos decorativos incorporados ao projeto de interiores. Essa lógica também orienta os quartos instalados na ala histórica. Embora mantenham o padrão de conforto exigido pela operação hoteleira, preservam características arquitetônicas inexistentes na construção mais recente.

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Azulejos produzidos pela fábrica de cerâmicas Viúva Lamego aparecem em diferentes espaços do hotel, funcionando como um ponto de continuidade entre os dois edifícios. Nos quartos, as cabeceiras das camas receberam painéis desenvolvidos pelo estúdio português Pedrita Studio, que reinterpretam esse material tradicional em linguagem contemporânea.

Em quartos como o Azulejo Signature Premium, o Pedrita Studio desenvolveu um painel inspirado na tradição cerâmica portuguesa, reinterpretada com linguagem contemporânea. Crédito: Divulgação

Um pátio que recupera uma paisagem desaparecida

No centro do complexo está o Courtyard by Novo Mundo, pátio aberto que funciona como área de convivência para hóspedes e visitantes. O desenho do espaço foi inspirado na antiga Praia da Boavista, que ocupava parte daquela região antes dos sucessivos aterros realizados em Lisboa.

Hoje, quem atravessa o pátio dificilmente imagina que ali existia uma faixa de areia voltada para o Tejo. A referência aparece na composição do ambiente: o piso de pequenas pedras lembra a textura da areia, o espelho d’água remete à proximidade histórica com o rio e revestimentos cerâmicos fazem alusão às escamas de peixe.

Inspirado na antiga Praia da Boavista, o Courtyard conecta as duas alas do empreendimento e resgata parte da história da frente ribeirinha de Lisboa. Crédito: Divulgação

Segundo Inês Teles, a intenção era recuperar essa memória sem recorrer a uma reprodução literal da antiga paisagem.

“Apesar de estarmos entre duas ruas muito movimentadas, o ambiente muda completamente. Há o som da água, menos ruído da cidade. A inspiração vem da antiga Praia da Boavista, que existia nesta zona”.

Durante o verão, o espaço recebe parte da programação do hotel, com jantares ao ar livre e apresentações musicais. A agenda também inclui noites de fado em determinados períodos do ano, além de eventos privados. Essas atividades são abertas ao público mediante reserva.

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Da arquitetura à gastronomia

O mesmo raciocínio utilizado para conectar os dois edifícios foi estendido aos espaços de alimentação. A cafeteria For the Voyage atende não apenas os hóspedes, mas também os moradores e trabalhadores da região, sem que seja preciso atravessar as áreas internas do edifício.

Aberta também ao público externo, a For the Voyage reúne cafeteria e confeitaria em um espaço inspirado na história da navegação portuguesa. Crédito: Divulgação

O nome faz referência às viagens marítimas portuguesas. Na decoração, há mapas antigos e elementos gráficos ligados à navegação, enquanto o cardápio oferece produtos tradicionais da confeitaria portuguesa ao lado de releituras contemporâneas.

O restaurante Novo Mundo segue linha semelhante. Em vez de reproduzir uma ambientação histórica, utiliza referências ao imaginário que cercava as viagens marítimas portuguesas, período em que regiões da África, da Ásia e da América ainda eram descritas, muitas vezes, a partir de relatos fantásticos.

Essa narrativa aparece em murais, ilustrações e elementos gráficos espalhados pelo salão. A arquitetura interna também reforça o conceito: parte do teto curvo e dos revestimentos faz alusão às embarcações utilizadas nas navegações oceânicas. A proposta se estende ao cardápio, comandado pelo chef Nuno Pizarro, que parte de receitas portuguesas reinterpretadas a partir de ingredientes e influências incorporados à culinária do país ao longo dos séculos.

Em uma cidade onde a reabilitação urbana tem redefinido bairros inteiros, hotéis como o DUO mostram que edifícios de diferentes épocas podem coexistir sem abrir mão de suas características originais.

flavio@revistaentrerios.pt

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